sábado, 31 de março de 2012

À vó



Mais vó
Onde sóra ta inu ?
Ta inu assim tao divagazinhu
Pé pu pé.

Vó , num vai naum
Si sóra fô
Quem vai fala pra mim qui casamento é importante?
Quem vai mi fala pa cume doci di cuié ?
Quem vai recramá que num gosto mais di colo?
Quem vai mi faze café cheroso e cafuné ?
Ah vó , fica mais um tiquim
Pruque sóra inu assim divagasim
Vai dueno ni mim qui só.

Anão vó ,
Vô sinti farta di tudo
Do seu cheirim cheroso
Do seu abraço concheganti
Da sabiduria da sinhora
Ah vó , sóra qui tantu fala, de tudo fala mais,
Mais sempre crecenta à gente arguma coisa

Vó já sei que a senhora tem que ir e vai
Mas não quero falar “tchau” não
Prefiro falar “inté” .

                                                                                     Gabriela Alves

sexta-feira, 30 de março de 2012

Poema dedicado à Graça e à graça


Diz Graça:
onde está toda aquela lucidez comum aos meus dias?
aquele gosto pelo real , onde o perdi?
Nada é tão engraçado como era 
Graça , graça já não há no jogo
tudo foi-se 
foi-se embora
o risos, bobos
a alegria, falsa
a esperança, que nunca tive

Graça , 
ainda sinto frio 
sinto medo 
sinto , eu sinto 
sinto a solidão percorrer meu corpo 
o que aconteceu?
porque aconteceu?

Tudo sempre acaba aqui 
este é o fim:
o café,
o papel,
a dor na cabeça e nos ombros, 
a tola escrevendo tolices 
achando-as tudo menos tolices
tolices que só importam a tal
tão somente ao verme 
ao verme que só procura se sentir melhor

O chão 
nele tudo é mais fácil
a pequenez é aceita
a confusão também 
O céu
não me vejo lá
inalcançável,
um sonho,
e consciente que apenas sonho
o chão se torna mais confortável 
me mantem sem cobranças .

Pode chover
a chuva não me lavará os pecados.
Pode fazer sol 
o sol não secará meus desejos.
Pode ser que tudo continue igual 
menos eu 
mudar conforme si mesmo 
uma valsa onde se dança sozinho 
estranho né Graça ?
a graça é que :
não existe falsa modéstia
existe interesse 
não o tenho.
Se o chão é o estado atual é também o limite
que seja todo percorrido,
conhecido, 
vasculhado, 
entendido. 
Que seja amigo dos que reconhecem nele 
a si mesmos 
O chão é só mais um espelho para os que nele caminham 
mal sabendo
tomar um norte em direção a si mesmos .

É na surrealidade que se encontra muito do real
Diz Graça :
do que se trata ?
porque parece estar em mim?

                                                                             Gabriela Alves

Se é que de lá sairá


        O tédio da solidão me obrigou a procurar a cama mais cedo , aquela que serve como refúgio contra ilusões , corações pulsantes e até monstros enquanto o monstro vive a bater à porta pelo lado de dentro.
        Quando se fecha os olhos uma semi-morte dá lugar a demônios que brincam com o pensamento humano , ciranda traduzida como pesadelo , vista como algo ruim. Por mais que a noite dure ela nunca será o bastante para os anseios de um coração que como o de todos os seres viventes é sozinho , porém este possui um diferencial : sabe disto. A Lua  formosa velou meu sono durante a noite , velou meu choro , velou tudo o que sou mas o transforma sempre numa nova apoteose pra minha humilde opinião sobre mim mesma . A escuridão é apenas mais uma característica da noite , característica responsável pela sua sinceridade , tudo pode ser o que é , nada necessita de um pano velho para ser escondido , a escuridão consome tudo. Mas tudo se rompe.
        O mistério da cama se rompe , e até o mais belo  jogo de imagens criados pelos demônios na mente se vão , eles se cansam de brincar com o subconsciente humano que  por muitas vezes sente alívio . Ah! semi-morte branda , por mais que complexa é bela , é desconhecida , é misteriosa , mas se rompe , tudo se rompe . O Sol se enciuma da Lua , não suporta ser a origem do brilho refletido pela mesma e nem ao menos ser visto . Tudo se rompe , amanhece .Vem o Sol querendo mostrar  beleza querendo demonstrar sua santidade e acaba por trazer ao dia o mero desprazer da sanidade tão mal vista durante a noite , o Sol ofusca a Lua e cobre tudo com uma iluminação que chega a desconfortar quem dorme , que se aproveita dos últimos instantes de morte.
        A manha estava clara , muito clara e ardia em temperatura alta  obrigando todos a alimentarem o desprazer de se levantar e trabalhar , estudar ou não fazer nada , mas o mero ato de levantar do refúgio era algo incômodo , sair daquela que mais parecia abraçar a solidão dos solitários . Todos seguiram suas vidas , mas aquela manhã por mais quente e clara que fosse não foi capaz de retirar a escuridão da noite que invadiu meus pensamentos e por lá ficou e deixou dúvida: Quando de lá sairá?
 
                                                                                                     Gabriela Alves

quinta-feira, 29 de março de 2012

Poema VI



Seus pés não se cansam?
vive voando por aí 
 sem preocupar-se em retornar a lugar algum 
sem saudade sem falta 

Sem norte ou destino 
não se apega
não se deixa apegar
apenas voa
foge

Esses olhos sempre no horizonte
não descansam deste sempre fatigante  
desse sempre cansado 
que quer parar mas não se permite

Um Hermes!
só assim é
assim si faz
nunca encontra sua Grécia
nunca a vê em nada

Um Hermes que foge
foge quase da Grécia
foge quase de si
foge da esperança em Deus 
embora seja um.
Vive fazendo o vento 
vive do vento
vive a voar.

                                      Gabriela Alves


terça-feira, 27 de março de 2012

Poema V



Só em meu quarto ia
e quantas vezes já morri neste dia?
não sei suportar a agonia 
e a casa se fazia tão vazia 
ah! quantos ia?
se eu ia 
que bom seria
sair do jogo
do tédio
da preocupação
da ocupação que dá 
dá essa vida
e a lida dela 
e se eu dela saísse
seria dura
seria madura
nunca doce como rapadura
mas isso já tanto perdura !

Há quem diga que seja belo
tudo o que mais há 
aquilo que nunca seria 
seria de origem má
 mas ah! que mais há?
há dor
ardor
ardor de sentir
 ardor de ver 
ver tudo explodir
ver tudo rimar 
num terno ir ... 

A casa aqui está só
agoniza pela garganta num nó 
se eu mais aqui ficar
morrerei novamente 
mas como valente 
por na casa vazia já há muito estar .

                                                     Gabriela Alves



Poema IV



Tinha um garoto mascando chicletes 
tinha um poema de Carlos Drummond
tinha eu que quase perdi no bonde com ele
tinha alguma coisa que eu não via 

Tinha o dia:
dor de garganta
preocupação 
dor de cabeça 
ocupação com a preocupação

Tinha o mar, um mar pertinho 
não imenso
não calmo
não bonito
estava mais pra marzinho
e o 'inho' era característica de tudo 
marmota de mar!
quase eu morta num mar feio

Tinha eu :
as aulas
as dores 
as findas
os tédios
o olhar no garoto que mascava chicletes 

Tinha eu um mar
tinha eu no mar
tinha o mar não em mim 


                                                Gabriela Alves



terça-feira, 20 de março de 2012

Poema III                                                                                                                                  

   Mas onde está todo o gozo que dizem?
dizem os velhos sobre a juventude 
a época em que os mesmos traduzem
todo amor , alegria , virtude.

A todo sol nascente espero 
aguardo ansiosamente a mudança
com o palpitar do peito quero
com alegria na vida eu numa dança 

Ah ! vida  desarranjada , amarga
não me culpes se te fumo 
não me dizerdes se tão somente
o teu peso minha dor alarga.

Nem mais o lascivo sabor da carne
é capaz de retira-me da tormenta
tormenta de existir na ausência daquela 
que deveria soprar em mim um pouco dela 

Ah ! vida porque de mim se ausenta ?
já o pouco de morte que existe
em mim é o que te representa 
já sou aquilo que desiste   

Se acima um gênio controla 
jogou em mim pragas outrora
a vida de mim se ausenta 
mas porque só de mim parece isenta?

Meus pés traçam um rumo comum
um vegetal que vive a mostrar beleza
como mister um a um
ouro guardam , veem nisso riqueza

Do inicio até o fim da morte 
corrói meu peito por esperançoso já não seguir 
a mercê da sorte 
espero a morte para enfim sentir 

                                                  Gabriela Alves





segunda-feira, 19 de março de 2012

Poema II                                                                                                                                                                                                      


 Um comerciante
um viajante
um eu que não conheço
e ao mesmo agradeço
pelo novo inovador
que me veio gritante
pra me tirar a dor
de um ontem em diante.
Oh caminhante
que aches tua estrela
e que a tal te guie
como fizeste a mim . Que ela
pra ti num sempre brilhe.
Que seja o  sol
que seja tua
que o Zeca  ainda cante
toda vez que um poeta escrever 
enquanto observa a lua
                                
                                                                  Gabriela Alves


Poema I                                                                                                                                                                                    

Era um beco 
um beco sem saída
tinha uma lâmpada
que iluminava o beco

Era um beco
 e dele eu não saía 
mas havia uma luz
quem sabe me iluminaria? 

No beco apareceram 
os ratos , os gatos e também o homem
mas nada conseguia retirar-me do beco

Era um beco sem saída
mas só eu dele não saía
a luz da lâmpada me permitia ver
ver tudo o que acontecia 
só não permitia do beco ver a saída 
mas será que o beco saída tinha? 

                                                                           Gabriela Alves


domingo, 18 de março de 2012

Verão

                                         


                                                                  A Vera chegou 
                                                        aquela amiga que traz sempre
                                                     o suor , o cansaço ,a indisposição 
                                                  o ventilador ligado , e sol  e sol  e  sol 
                                                 Ah Vera ! quando  vai embora  despede 
                                                  de va gar zi nho  e chora e chora deixa
                                                     o céu chover e um friozinho brisar
                                                       Ah Vera ! não mais me visites 
                                                               meu ardor lá dentro        não    suporta   o    Verão 


                                                                                        
                                                                                                               Gabriela Alves 


                         
                                                                                           
                                                        



                          

quarta-feira, 14 de março de 2012

Oh , vamos voltar ao começo

  
Zeca cantava Versos Perdidos enquanto a grande esfera ao Norte nascia. O ônibus sacudia minhas lembranças: na noite anterior ofendi um grande amigo lhe dizendo a verdade , não poderia ser pior.
As nuvens se inundavam num tom cinzento com um plano de fundo amarelo e uma chuva fina caía de uma nuvem mais grossa. Me senti sozinha, o friozinho da manhã invadiu minhas narinas passaram pela traqueia , chegando aos brônquios , nos bronquíolos o oxigênio se ligou às hemácias que o levaria para o restante do corpo fazendo-o resfriar totalmente. O  restante dos ares inalados também se ligaram com hemácias que os levariam pelo caminho de volta . Minha expiração saía quente pelas fossas nasais. Escutava o som nítido de minha respiração enquanto observava meu modo de tocar a lapiseira.
A estrada era bonita, pequenas florestas de eucaliptos se intercalavam com extensões de campos. ” As frases são minhas / as verdades são tuas” Tradução de tudo que sentia naquele momento, não me arrependera dos acontecimentos da noite passada   , mas temia a sinceridade usada . Por alguns segundos  meus olhos viram meus olhos através do retrovisor interno do ônibus, estavam tristes, secos, as olheiras se faziam presentes parecendo me envelhecer, a franja tampava minha testa e minha boca brilhava num batom vermelho  melancia. As unhas curtas sinalizavam a ansiedade que a atormentara durante a noite , parte feita de insônia e parte feita de sonhos estranhos .
A cabeça doía com pensamentos de findas, estava realmente triste. Do lado de fora o Sol mudara sua posição , o ônibus se remexia menos enquanto a paisagem ficava mais lenta . Cold Play cantaria The scientist. E eu só gostaria de um “está tudo bem”.
                                                                                      Gabriela Alves

O Carpinteiro


Como carpinteiro , durante muitos anos , se diminuiu perante o pedido daqueles que o procuravam , queriam sempre móveis simples , crueldade para com aquele homem que tanto adoraria criar o novo.
O baixo preço cobrado não permitia grandes luxos àquele homem , não podia se  entregar à paixão  de moldar a madeira de acordo com a Arte que seus pensamentos propunham , no máximo economizava para materiais novos que com o tempo levavam as suas criações à perfeição da simplicidade tão mal quista pelo homem que ficava velho como o sonho da criação .
A cama de solteiro rangeu fino enquanto o senhor se levantava , teria que consertar a velha . Coçou a cabeça enquanto espremia as pálpebras tentando encontrar os óculos que se localizavam no criado-mudo . Colocou os olhos percebendo o sol adentrado o céu ainda tímido , iluminando seu quarto por inteiro .Imaginou como aquele Sol poderia secar rapidamente um o verniz de um móvel novo .
Pela porta dos fundos que dava para o quintal saiu segurando uma caneca cheia de café quente , observou durante um tempo o ultimo feito. Pôs-se logo a encara-lo perguntando-se o porquê daquilo. O pedido foi bem claro com medidas e modo como o comprador desejava a cadeira de balanço , pois o velho alargou as medidas de modo que a cadeira acomodasse duas velhas gordas , anjos foram talhados na borda superior , os braços maiores para uma comodidade também maior .  O velho estava preocupado .
Terminou a xícara de café e colocou-a em cima da mesa que rente ao muro se fazia  .Coçou a cabeça novamente , suas economias iriam todas para o pagamento da madeira , o comprador insatisfeito maldizer ia o  nome do pobre carpinteiro que mal sabia o porque de desviar tanto o rumo da criação .
Com um esforço considerável arrastou a cadeira para o alpendre a fim de se esconder do sol naquela reflexão . A madeira áspera , recém cortada não foi um motivo suficiente para manter Seu Pedro distante .Sentou-se , começou a se balançar de modo ritmado , escorou posicionando a cabeça entre os dois anjos talhados .Por instantes uma brisa suave tocou delicadamente seu corpo e por estes mesmos instantes escondeu  do velho as suas preocupações . Pedro se  recordou de um jovem que muito cedo se apaixonou pela madeira , por sua resistência , por aceitar suas mãos .  Enquanto a brisa durou suave em seu copo , sorriu.
                                                                       Gabriela Alves




sábado, 10 de março de 2012

Trem das cinco



          Chovia , o céu nublado destacava aquele inverno como o pior em anos , a lama em volta era só mais uma característica da pequena e pacata cidade . Carolina caminhava a passos largos em direção a estação , a pequena bolsa de mão pesava e a capa que usava lhe dava uma alegria imensa em não ser reconhecida. O guarda-chuva a incomodava .
          Chegou cedo , não passava das 16 e o trem demoraria ."Será que ele vem ?" , hesitara em fugir  quando se viu diante da proposta  , Marcelo a fizera depois de cadeiras e taças quebradas , não tinham lenços ou lenções , nem mesmo amor tinham , tudo se acabara junto com o respeito e honestidade , a solução encontrada era fugir, " mas fugir de que ?" , " de mim mesma!" , chegava sempre a mesma conclusão .
           O banco onde estava sentada brilhava verniz , a época úmida exigia alguns cuidados. Acima de sua cabeça uma lampada velha ligada iluminava o que devia estar claro e não o estava por capricho do céu cinza . Abriu a bolsa encontrou um espelho , pequeno suas bordas foleadas com ouro "Oh riqueza , o que fez com o que me parecia eu?" , colocou-o frente a sua face , nem os olhos fundos nem a pele  branca ,pálida eram características capazes de esconder sua beleza  e mesmo depois de tanto tempo , lhe ocorria que os dentes não lhe eram vistos , nem mesmo  ao comer , o que não ocorria frequentemente.
           Um tempo se passou ,  Carolina observava agora a cor amarelada que a lampada velha proporcionava às mãos , mãos delicadas , macias que tantas vezes serviu de apoio para a cabeça quando esta precisava tão somente  da amnésia dos dias , sorriu a lembrar da infância e de suas facilidades . Lembrou da mãe , do cheiro de café nas manhas claras antes da escola . "Porque crescer?" .Olhou para seu lado , um homem alto , moreno , parecia preocupado ou apenas culpado .
         - Pronta?
         Marcelo , com o olhar de eterna espera , o semblante sério sempre comportado e crítico . Ela acenava com a cabeça , afirmando a decisão. Alguns minutos e os dois de pé , em silêncio , parados se abraçaram como se tentassem confortar um ao outro; interrompidos então pelo sinal do trem , era os último para o embarque , olharam um nos olhos do outro , e como se num ensaio pensaram juntos que seria bom .  num outro sentimento ainda desconhecido adentraram , estavam felizes. Fizeram o embarque tentando se esquecer da Vida até então .
         Quando o trem se pôs em movimento , já sentados, foram vistos como um casal de desconhecidos , abraçados em uma só motivaçao : seria um novo começo ou um novo final. O relógio marcava cinco horas , estava quente ali dentro e da janela via-se uma nova tempestade se formando lá fora.
                                                                                                                   
                                                                                     Gabriela Alves 



sexta-feira, 9 de março de 2012

Conto do velho



                Casou-se aos 30 com uma loira da faculdade. Compartilhavam a paixão pela física , ela também a paixão por ele e ele pelo desejo de si mudar .
                A mãe adorava a nora . O pai não alterava o semblante .
                Longas conversas nos almoços de domingo  , com o tempo  tornaram-no a lembrança de um sonhador , sozinho não podia continuar sem se frustrar .
                Comprou uma casa , nos fundos fez uma espécie de biblioteca, vários livros mas não variados , aos poucos a física foi indo embora e só restou a mãe de todas as ciências . Com o tempo crescia o mistério : o que um velho vazia durante horas naquele lugar ? A dúvida só crescia  como cresceram-se os filhos e como também estes saíram de casa , mas o velho não saía daquilo que mais parecia um berço que um quarto cheio de livros .
                 Dormiu e sonhou:
                ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­“ Velho , Joga fora tuas velharias !
                A vã Filosofia , a Filosofia e também sua criação .
 Afaste-se delas  , morra delas .
                Já sois um poeta aposentado , não fuja da tua condenação”
 Eram palavras de uma velha conhecida .
                Acordou . Não somente do sonho mas também da vida : A velha estava morta , não fazia diferença  , se perturbou com isso  ; mas a Vida  , como passara ? não recordava e não era novidade o gosto de sua ausência .
                 A Filosofia que segurava  era seu peito  , o aparelho de som muito atual aos seus olhos  uma vitrola , ouvia “Eu não tenho medo / eu não tenho tempo / eu não sei voar”. Fechou os olhos cansados , sentiu algo infinito lhe abalar o peito . A morte o visitava . E assim como viveu , morreu louco .
                O velho que morre velho , com suas velharias que o reinventavam  numa nova existência ainda mais doída , mas realmente existência .
                                                                                                         Gabriela Alves


Ao poeta sonhador

                

                Durante a noite o sonho:
                Sentada no meio  fio
                Um som escuto
                Imponente
                Forte , um frio
                Era um caminhão
                Um menino
                Apoiado no painel
               
                Lá vem o caminhão
                Grande
Passou  , passa
E quando quase  ‘passará’ , parou
 O menino  desceu
Cresceu
Renasceu
Cansou
E si esqueceu

- quer ler um livro de verdade?
-quero.
As paredes tremem
Ao mesmo tempo que ouvidos
Na sala
Mandões , estranhavam
“não quero ser Fausto!”
 Se fecha a porta  o quarto
Se chove em rios o céu
Enquanto o Fora Escuro  finge a felicidade alheia
O Dentro Medo  deita
Fecha os olhos
Morto:
Mas cadê ?
Onde está o poeta que me fez nascer?
Procuro :
 Gaveta de meias
Entre os perfumes
           Dentro dos livros:
  História ? não
Física ? quase
Oh! Filosofia , porque não revela  dos teus filhos o esconderijo ?
Me canso

Café e papel
Confortam o escritor
Que se questiona
Que coça a cabeça
Que se dói da cabeça
Pergunta:
Não soluciona
Deixa:
Não meça

Acima o gênio  controla
O conto
Do velho
Da vitrola o samba antigo

Mas cadê?
Onde está o poeta que me fez nascer?
Seja lá de onde surja
Que sua mão suja
Valha um dia
Os sacrifícios do poeta  escondido
Os sacrifícios do poeta sonhador 

                                               Gabriela Alves
                                                                    Dedicado à Hugo Carvalhaes

          






Oh quarta aula!


        
                Sentimento de culpa não bate à porta , ele entra deita no seu sofá e dorme roncando com os pés sujos na parede. Ele também te torna incrivelmente pequena : uma formiga numa floresta de eucaliptos , ela conhece bem o chão mas não vê o céu , nem ao menos sente sua falta e não o vê em sonho , apenas se contenta com seus poucos dias de vida e com seus afazeres .
                Meu estômago embrulhado lisonjeia-se com a presença de um gosto amargo , meus olhos lacrimejam tornando a visão menos seca . Rodeada por chatos , suponho o porquê do mal estar , alguns preocupados   com o vestibular , outros com o que comer o que vestir e ainda aqueles sem preocupação alguma . Somos todos chatos perturbando nossos dias com coisas desinteressantes .
                Mais um pouco e a Vida continua me fazendo suar  contra a pequenez que me impõe  . É verão , o céu está bonito , meu estômago dói e a professora disse algo sobre comédia. 
                                                                                    Gabriela Alves


quinta-feira, 8 de março de 2012

Vela velha



                                                                

O céu alaranjado servia de plano de fundo para a cidade onde habita  ‘A escola’ . O ônibus mexia e remexia meu corpo mas minha mente ultrapassava o alaranjado e chegava a um mundo escuro.
A minha boca sorria realmente de futilidades e meu cérebro se preocupava com o nível de conhecimento que armazenava . A estrada cheia de buracos tentava me trazer para uma realidade inútil onde um tal sistema civilizado deveria  cuidar dos benefícios à população , mas nesse momento nem a política nem a ausência dela me interessavam,  por que a cada metro de proximidade do destino eu mergulhava mais profundamente no que há de mais negro do negro mundo : a ausência da iluminação . Os questionamentos e indagações me perturbavam de tal forma , chegando a me cansar . Perguntas que a Escola nunca se disponibilizaria a responder .
O século XVIII é também conhecido como “século das luzes” com o início do iluminismo , cuja teoria principal é a crença no aperfeiçoamento baseado na razão ,  como também no avanço apoiado pelas ciências .Prefiro imaginar uma noite sem lua , onde chove e venta bastante , a eletricidade  acaba , tudo se torna um “breu” , até que alguém encontra na gaveta da dispensa uma vela velha . Se ascende , seu campo de visão passa do nulo para no máximo dois metros , mesmo assim o sentimento é de alivio e confiança no caminho de seus passos. O Iluminismo foi isso , o homem por si só  , aplicando conhecimentos , fruto da opinião racional , segurando uma luz própria .
A explicação dos seus pensamentos e a defesa dos mesmos tornou-se algo importante, creio eu que as complicações começaram aí  , o medo das desaprovações  religiosas na maioria das vezes não eram o bastante para calar a boca ou os pensamentos e embora a opinião própria hoje seja tão necessária e enraizada , ela proporcionou uma diferença ainda maior entre os povos e justamente a “Iluminação” foi o marco principal disto que hoje se torna um fato.
Neste momento me deparo com uma confusão de opiniões , não aprovo nem desaprovo , não falo certamente nem me calo totalmente , nem positivo nem negativo , como uma pilha sem carga.
O nosso rosto , o cabelo  , a forma do corpo e tantas outras características são resultado de uma mistura de tantas outras  passadas por aqueles que nunca conheci , um caldeirão de meus antepassados .Talvez a opinião deveria ser observada da mesma maneira, ligações de varias formas de pensamento que originariam outras , mas logo penso : se assim for , surgem novas e novas opiniões , a todo momento ; chegaríamos  ou voltaríamos ao estágio inicial então teríamos que novamente sofrer da mesma forma por tê-las? será que deveríamos ter uma opinião definida? ou será que nossas opiniões é o que nos definem?
         Creio numa vida além de algo certo , único ; onde o errado não exista  , o que exista seja diferentes verdades . Como uma vela velha  que se torna tão importante quando é a única fonte de luz.
                                                                           Gabriela Alves


Perfeição de uma igualdade



Tudo se tornou tão difícil como um quebra cabeça de variadas cores e peças infinitas .As horas mais lentas , os dias mais quentes, o sabor mais amargo . Em casa me aprisiono no quarto , meu refugio da família que busca meu bem em cobranças disfarçadas e  sorrisos amarelos . Na escola tudo bem , me sinto bem aqui.
Da janela alguns pés de abacate , macacos adoram abacate e é verão , o ventilador é meu  único elo com o que se passa  .
É aula de geometria , o professor fala sobre  diagonais , pontos , projeções . Bobagem! Mais problemas adicionados a dose fatal dos questionamentos reais , dizem que  os tais , um dia me farão uma profissional . Mais que mecanicamente , busco um suposto conhecimento .
Vejo alguns alunos participando , não me interesso : meus olhos pedem para ser fechados , meu corpo pede cobertas e cama e minha boca nem ao menos tenta balbuciar algo , toda palavra é erro porque é fruto do achismo.
Em meio a suposições obrigatórias , ponho , suponho e exponho o que acho e desacho , as vezes tenho tanta certeza a absoluta certeza. Ode aos números ! Necessários , ocultos , disfarçados , me perco em toda aquela exatidão .
Doce matemática , do grego “ Mathema”   significa estudo . Indo além de números , símbolos , é o querer ir além , conhecer , aprender . Desejar o raciocínio e liberta-lo de tal forma chegando à perfeição de uma igualdade .
A realidade tão impura não permite tal sobriedade  , apenas nos disturbamos num sistema do qual somos escravos .
Segundo Hugo Couto “Quando inferimos ou deduzimos um teorema matemático temos a absoluta certeza daquilo , não existe outro lugar onde isso seja perfeito”. Tamanho primor só pode ser comparado a Arte , a perfeita Arte que não somente eleva o ser a algo utópico , bom verdadeiramente mas que eleva o ser a exata maestria .
                                                                                 Gabriela Alves


A velha


                                                 
                                        
                      
O sol  entrava  pela janela e diferentemente dos outros dias onde delicadamente acariciava com seus raios , naquele instante a luz forte colidia com seu corpo , fazendo-o arder. Pelas janelas não entrava brisa alguma capaz de aliviar aquele sentimento  de culpa .
                Na penteadeira de madeira escura o espelho presente a obrigava  ver o efeito dos anos em sua face e em seu corpo . Sobre a mesa ao lado a escova escondia cabelos brancos frutos do cansaço  , do trabalho ; apenas resultado da vida que escolhera pra si . Carolina olhava fixamente o espelho  e a manhã enchia de claridade todo o quarto porem seus olhos continuavam negros e sem brilho algum .
                Tudo o que fez não foi o bastante para satisfaze-la  , todas as noites perdidas , todos os objetivos alcançados , tudo o que queria conquistado .        
Caroline  nasceu em 14 de julho de  1909 em  Rio   de Janeiro , por um parto em sua própria casa por medico e  enfermeira contratados. Proveniente de uma família rica  , logo  aquela linda menina de cabelos negros e branca pele negaria toda a fortuna por algo maior , desde cedo se comparava a coisas grandiosas como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro com o qual compartilhava a mesma data de nascimento  ,era grande de natureza e servia como cartão postal da cidade , algo que caracterizava a região , ela queria ser assim , no entanto queria se construir sozinha  foi então que começou a negar os bailes fúteis  , os supostos amigos da família e principalmente os ensinamentos  dos deveres da mulher .
 Século XX  , as mulheres começaram uma luta organizada em defesa  de seus direitos   e foi então que aquela corajosa  jovem viu  onde cabia . Numa noite de lua cheia  , a garota decidida fugiu de casa ,  procurou abrigo no casebre da antiga baba que a recebeu de braços abertos , assim como concordou com a luta em que a menina se engajava , o diferencial dela era que tinha conhecimento , fruto dos ensinamentos que recebeu desde cedo , estava agora com 19 anos e uma ânsia enorme em mudar , fazer a diferença .
O ano era de 1928 e em  Mossoró o governador  Juvenal  Lamartine do estado nordestino do Rio Grande do Norte  autoriza o voto da mulher em eleições , a noticia rapidamente se espalhou por todo o Brasil e chegou aos ouvidos de Caroline , era  o sopro na faísca que ela precisava pra fazer a fogueira , ela viu que dai pra frente era lutar . A partir de então  ela  começou a fazer parte de vários movimentos , abandonando assim completamente a mais pequena possibilidade de voltar para família que a procurava  incansavelmente .
Caroline conseguiu entrar para o enorme grupo liderado por Berta Lutz e Nísia Floresta que em 1922 fundaram a Federação Brasileira pelo Progresso  Feminino , que lutava pelo voto  , pela escolha do domicilio e pelo trabalho das mulheres sem a autorização do marido . Ainda era 1928 e Mietta Santiago então advogada conseguiu provar que a proibição do voto feminino contradizia  o artigo 70 da Constituição da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil então em vigor , era o inicio da grande luta que se estendeu por 5 anos, então o  código eleitoral elaborado em 1933 finalmente autorizou  o direito a voto e a representação política às mulheres.
Neste momento chegou a família de Caroline a verdade sobre seu paradeiro , quando revelada causou um único sentimento na família , a repulsa . Era inadmissível que uma descendente de uma das famílias mais importantes do Rio se envolvesse em um movimento tido como vergonhoso na época , era a morte da filha única dos nobres do casarão .
Então com 24 anos , a personagem principal desta narração era tida como mal amada assim como todas as mulheres do movimento feminista  , vivia se mudando de uma casa para outra , sem se fixar , sem encontrar alguém com que pudesse conversar um pouco sobre o dia  , a noite  ou qualquer coisa que não  correspondesse a um objetivo do movimento feminista e que não fizesse referencia a direitos da mulher , aquela garota se tornou o próprio objetivo , vivia dos pensamentos que procurava expor e  da diferença que queria fazer .
Trinta anos se passaram  e o que aquela mulher tirara pra si de tudo o que vivera? Trabalhou a vida inteira , conquistou seus objetivos e o movimento que participara ainda estava lá , não se arrependia  mas se sentia só , e sabia que a tristeza que então com 54 anos sentia era consequência do que um dia a motivou a viver e a ser melhor e procurar romper barreiras e  a ser independente . Sentia que  deixava a grandiosidade de tudo e o que a consumia era a solidão , não tinha marido , não tinha filhos , não tinha nem o amor próprio , tudo acabou com o cansaço que a luta deixou em seu corpo e em cada rastro seu .
O espelho  mostrava a Caroline no que ela se transformara : numa velha ,  não desmerecia suas conquistas  mas  a envergonhava e culpava por não poder ter sido mais.                
                                                                    Gabriela Alves

Se soubesse voar


                                                 Se soubesse voar

O careca à minha frente não quis cantar , disse que não tinha os cabos necessários , a verdade é que não queria ,uma moça se levantou e canta agora , sem instrumento algum “vem cear , o mestre chama : vem cear” .Ao meu lado direito diaconisas uniformizadas . Brancas , pretas e amareladas , agora todas de azul. À frente o pastor encara meu batom vermelho , certamente uma ofensa , em minha ala , muitos chatos e chatas fingem uma alegria curiosa. À minha esquerda os varões .  Porque essa divisão afinal?
Quarenta e cinco lâmpadas iluminam o local . Observo melhor  :um desfile de moda . Não preciso ficar bonito pra criticar essa ‘coisa’ à qual chamam religiosidade , mentira! Chamo ‘coisa’ pois sempre conheci como fanatismo , é fato que desde cedo na Igreja é difícil não se enjoar disto tudo :das palavras repetidas , cantorias repetidas , pessoas repetidas , orações repetidas ,pedidos repetidos . Tudo  muito igual .
Não há como não se perguntar do porque de tudo isso : o porque de ajoelhar e pedir clemencia e pedir por favor e pedir e pedir. Qual a explicação ?Que poder tem esse tal “nome de Jesus” ?me questiono o quanto posso e suporto.
20:00 horas , é domingo e eu gostaria de estar em casa comendo ou escutando Zeca ou namorando  Hugo ou conversando sobre qualquer coisa com o tal que com certeza iria contra o que eu falasse mas dialogaria de igual pra igual.Faz calor e faltam 18 dias para o fim do verão.
 O calor das ultimas noites não consegue adentrar meu peito , me sinto tão só quanto um caminhante e tão sem rumo quanto uma bussola de campos invertidos , sinto vontade de vestir um tecido fino florido , andar descalça por uma rodovia fria e sentir um vento interminável que me pegue , me eleve , me tire desde lugar , me faça sentir frio , mas que me faça sentir algo a mais que esse calor , que não me deixe ouvir nada além que o som da brisa batendo em minha vestimenta .
Se fumasse  precisaria de um cigarro , se bebesse  de um conhaque , e se soubesse voar , precisaria  de um mar , onde só pudesse voar e voar , sem poder parar um pouco e descansar  , só poderia me salvar por minhas asas , por mim mesma .
Preciso lavar-me desses momentos , isto tem me feito triste , confusa , é uma espécie de obrigação fantasiada de “é para o seu bem” não é o que parece , pareço uma palhaça. Todos aplaudem a um deus circunstancial , muitos nunca o sentiram e mesmo assim o seguem , muitos não creem mas preferem fingir a correr o risco.
O mundo está girando agora . Neste momento existe alguém  do outro lado do mundo , entediado num escritório , louco pela hora do almoço e aqui ainda são 20:21 e falta muito tempo pra isso acabar . Quero sair da ‘coisa’ o mais rápido possível porque ainda faz muito calor e eu ainda não sinto que nada disso faça sentido.
                                                                                     Gabriela Alves


Ainda pode-se ter voz

                 



Lembrança de Vinicius de Morais


Lembrança de Vinicius de Morais

O sol do meio dia cansa meus olhos que  insistem em piscar de vez em vez , me dói a cabeça as dores que apenas me doem e não dói a mais ninguém .
“Guerras dão forma ao poeta” , Um poeta um sou e é só como tal que me comporto , me sacia a recompensa e as dúvidas me lançam um novo inimigo , de quem já fui amigo , um  tal de eu . Nesta guerra infinita , me suponho como gente , as vezes como indigente e quase sempre como expectador .
Um norte é só uma direção , não um lugar certo , mas um rumo . O fim é quando se encontra  o esperado  . Direções são infinitas , o homem finito seguidor de modelos .
Quando se espera retornar já é tarde , há sempre duas direções contrarias que insistem  em anular o caminhante , o fraco , o louco.
Dizem que p sofrer da caminhada faz mais sentido que o sentar no meio fio e esperar  talvez a sorte infinita , o Deus inexistente ou a certa morte certa.
Faz calor e me lembro de Vinicius de Morais em Poética(I).
                                                                                                     Gabriela Alves

                                                 "De manhã escureço
                                                      De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando."




O abajur


                A única luz na casa era a do pequeno abajur ao lado da cama . De camisola , sentada seus olhos escuros passeavam  pelo quarto , as vezes refletindo sobre aqueles sorrisos amarelos na foto da família , as vezes questionando se o marido ao lado um dia acordaria , e sempre com um olhar fixo no chão , vendo a si mesma.
                O pai morreu e a mãe mudou-se para outro país  dizia que para investir na carreira . Carolina já não trabalhava mais , apesar da ótima formação. Depois que se casou passou a viver seus dias a desfrutar da fortuna do marido . Mas despois de um tempo , as taças de vinhos importados já não faziam efeito , os vestidos e sapatos  caros já não despertavam animação e a casa com todos os confortos não descaçavam  a alma .Tudo se transformava num ‘Black and  blue’  infinito .
                O casamento  começou  a se basear no mau humor do marido , no conhaque e no sexo ruim . Carolina e Roberto não se falavam , nem os dentes de ambos eram vistos . Toda paixão morreu e renasceu num eterno inverno caindo em nada mais do que rotina.
                Carolina deitou-se fechando os olhos . A luz do abajur refletia bem numa foto , em Roberto  como também em Carolina , mas no chão , sim o chão estava bem iluminado.
                                                                                    Gabriela Alves