O sol entrava
pela janela e diferentemente dos outros dias onde delicadamente
acariciava com seus raios , naquele instante a luz forte colidia com seu corpo
, fazendo-o arder. Pelas janelas não entrava brisa alguma capaz de aliviar
aquele sentimento de culpa .
Na penteadeira de madeira escura
o espelho presente a obrigava ver o
efeito dos anos em sua face e em seu corpo . Sobre a mesa ao lado a escova
escondia cabelos brancos frutos do cansaço
, do trabalho ; apenas resultado da vida que escolhera pra si . Carolina
olhava fixamente o espelho e a manhã
enchia de claridade todo o quarto porem seus olhos continuavam negros e sem
brilho algum .
Tudo o que
fez não foi o bastante para satisfaze-la
, todas as noites perdidas , todos os objetivos alcançados , tudo o que
queria conquistado .
Caroline nasceu em 14 de julho de 1909 em
Rio de Janeiro , por um parto em
sua própria casa por medico e enfermeira
contratados. Proveniente de uma família rica
, logo aquela linda menina de cabelos
negros e branca pele negaria toda a fortuna por algo maior , desde cedo se
comparava a coisas grandiosas como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro com o
qual compartilhava a mesma data de nascimento
,era grande de natureza e servia como cartão postal da cidade , algo que
caracterizava a região , ela queria ser assim , no entanto queria se construir
sozinha foi então que começou a negar os
bailes fúteis , os supostos amigos da
família e principalmente os ensinamentos
dos deveres da mulher .
Século XX
, as mulheres começaram uma luta organizada em defesa de seus direitos e foi
então que aquela corajosa jovem viu onde cabia . Numa noite de lua cheia , a garota decidida fugiu de casa , procurou abrigo no casebre da antiga baba que
a recebeu de braços abertos , assim como concordou com a luta em que a menina
se engajava , o diferencial dela era que tinha conhecimento , fruto dos
ensinamentos que recebeu desde cedo , estava agora com 19 anos e uma ânsia
enorme em mudar , fazer a diferença .
O ano era de 1928 e em Mossoró o governador Juvenal
Lamartine do estado nordestino do Rio Grande do Norte autoriza o voto da mulher em eleições , a
noticia rapidamente se espalhou por todo o Brasil e chegou aos ouvidos de
Caroline , era o sopro na faísca que ela
precisava pra fazer a fogueira , ela viu que dai pra frente era lutar . A
partir de então ela começou a fazer parte de vários movimentos ,
abandonando assim completamente a mais pequena possibilidade de voltar para
família que a procurava incansavelmente
.
Caroline conseguiu entrar para o
enorme grupo liderado por Berta Lutz e Nísia Floresta que em 1922 fundaram a
Federação Brasileira pelo Progresso
Feminino , que lutava pelo voto ,
pela escolha do domicilio e pelo trabalho das mulheres sem a autorização do
marido . Ainda era 1928 e Mietta Santiago então advogada conseguiu provar que a
proibição do voto feminino contradizia o
artigo 70 da Constituição da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil
então em vigor , era o inicio da grande luta que se estendeu por 5 anos, então o código eleitoral elaborado em 1933 finalmente
autorizou o direito a voto e a representação política às mulheres.
Neste momento chegou a família de
Caroline a verdade sobre seu paradeiro , quando revelada causou um único
sentimento na família , a repulsa . Era inadmissível que uma descendente de uma
das famílias mais importantes do Rio se envolvesse em um movimento tido como
vergonhoso na época , era a morte da filha única dos nobres do casarão .
Então com 24 anos , a personagem
principal desta narração era tida como mal amada assim como todas as mulheres
do movimento feminista , vivia se
mudando de uma casa para outra , sem se fixar , sem encontrar alguém com que
pudesse conversar um pouco sobre o dia ,
a noite ou qualquer coisa que não correspondesse a um objetivo do movimento
feminista e que não fizesse referencia a direitos da mulher , aquela garota se
tornou o próprio objetivo , vivia dos pensamentos que procurava expor e da diferença que queria fazer .
Trinta anos se passaram e o que aquela mulher tirara pra si de tudo o
que vivera? Trabalhou a vida inteira ,
conquistou seus objetivos e o movimento que participara ainda estava lá , não
se arrependia mas se sentia só , e sabia
que a tristeza que então com 54 anos sentia era consequência do que um dia a
motivou a viver e a ser melhor e procurar romper barreiras e a ser independente . Sentia que deixava a grandiosidade de tudo e o que a
consumia era a solidão , não tinha marido , não tinha filhos , não tinha nem o
amor próprio , tudo acabou com o cansaço que a luta deixou em seu corpo e em
cada rastro seu .
O espelho mostrava a Caroline no que ela se
transformara : numa velha , não
desmerecia suas conquistas mas a envergonhava e culpava por não poder ter
sido mais.
Gabriela Alves