segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Observação

Todo meu amor é ostentação de vida
tudo que posso, não posso ou devo fazer
devo tantas coisas que com esse saldo iria para o inferno
com ótima reputação.

Amor,
essa idiotice armada por Deus pra nos lembrar nossa inferioridade
pra lembrar nossa perversidade
o pecado pai de todos nossos pecados.

Meu bem é ter rancor nas artérias e ter o tédio nas veias,
meu bem é ver esse dia sorridente na angústia exasperada de um mal por vir,
é salutar toda essa mediocridade,
olhos vendados
cabem à nossa poética imagem de justiça. 

Não existe porventura um oceano de virtudes
Pra me banhar por lá?
Tudo está errado nesse mundo,
tudo que é o certo está fora da mente
enquanto os devaneios são loucos pesares de homens doentes.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

15/08/13

Quando ousei pensar em flores
já achei que eu não fosse,
já achei que meu não fosse
o cheiro doce e completo daquelas flores

Parecendo santas e suaves
em beleza salutar.
Brancas, vermelhas ou rosadas
dançando formosas um movimento singular

Por fim já cansada de tanta entrega
das belas, efêmeras rosas
fechei os olhos em paixão terna
velando minhas honras.

Ainda me lembro do desabrochar daquelas flores,
da tristeza que me deu
ter de deixa-las, ir embora.

Hoje, desejo incompleta
-num ensejo novo, não discreto-
de florescer sempre
em nova forma.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Do tempo que sobrava

      Acordou prematura sentando-se na cama ao som comum do ranger estridente. O bocejo longo garfou muito do ar fétido que reinava no quarto sujo. Os lençóis amarelados e torcidos deixavam à mostra a capa do colchão em floral e também nítida a ganância sensual da noite anterior que agora mornava-se em sonolência.
       Já de pé, a nudez vazia da mulher se fazia em curvas preguiçosas e pouco tênues em sua magreza doentia, caminhou lentamente no canto pequeno entre a cama e a parede, o cabelo bagunçado era um contraste com o liso cortejante que mantinha sempre seus cabelos a enfeitar seu belo rosto, só que agora naturalmente tudo lhe caía melhor, talvez um desleixo proposital a fim de arrancar suspiros.
       As pequenas passadas cuidadosas entre as roupas espalhadas pelo chão pareciam incertas em finalidade: ou faziam parte duma reflexão ao passo da lembrança da noite anterior ou ainda um modo grosseiro de esticar-se as juntas num estralo tão comum que não lhe feriam o costume. Dando de costas para a parede e colocando-se novamente a atenção na cama fez-se surgir na malandra um olhar malicioso, talvez de dúvida. Passando a mão espalmada do queixo até a testa, retirando a franja do rosto de modo que não atrapalharia sua visão, colocou-se estática com o braço esquerdo em posição que de modo geral o escravo logo a baixo pudesse vislumbrar seu rosto.
       Como se anestesiada seu semblante quase nítido em gozo era, sem dúvida, sedutor: a boca entreaberta tornava suas bochechas mais redondas e a posição constante rosou-as de quase trêmulas, os olhos rasos, quase fechados eras linhas ferozes que gritavam libido, quase adivinhando o chamado da amante acordou o homem ainda preguiço num silêncio misterioso passando a mão compulsivamente nos olhos tentando melhorar a visão embaçada de quem está cansado. As olheiras da mulher quase não se mostravam como defeito diante da perfeição de sua cena. Disse um bom dia ao homem enquanto enfim desligou-se da posição de alguns minutos para deitar sobre ele com calma maternal.
        Permaneceu pois ali algum tempo não estimado de forma que o toque corporal entre eles acendesse certa chama apagada ainda a pouco entre arrepios e fôlegos poucos. Imobilizou-a num golpe violento de pernas e braços que enlaçaram-na rente por baixo, com beijos molhados intercalados com caricias sutis corpo a corpo, a mulher já febril e arrepiada não corresponderia melhor aos toques sensuais que passavam carne à carne o desejo mais puro e animalesco de conhecimento humano. Foi tamanho tormento o enlace, o mais cabuloso dos momentos que tiveram juntos, que para ambos  já o grito emotivo de prazer ofegante ocorreu num só tempo, como se ensaiado ou ainda, de quem já a muito tempo persegue o mais profundo interior do outro.
       O amplexo continuado e estendido pelo suor que os unia numa única  posição  foi perdendo o valor a medida que perdeu-se nas entranhas de cada um os sopros suaves e carnais que até então os moviam frenéticos, levantou a mulher muda e mecânica a perseguir suas vestimentas no chão e pô-las uma a uma, renda sobre renda que cobriam pouco a pouco a beleza escondida e também sua mazela. Sobre a mesa de madeira barata no canto da cama permanecia o motivo da noite mal dormida da tal mulher. Pegou o pequeno embrulho ao passo que os pés  miúdos calçavam com destreza os sapatos altos. O homem na cama a olhava continuamente em silêncio maciço. Saiu com passadas fortes a mulher batendo a porta com violência.
       O espelho do elevador viu, no entanto, suas pequenas mãos contando deliciosamente notas altas, as poucas que ganhara e então sob o batom vermelho, recentemente debruçado pelos lábios finos, surgiu um sorriso tímido e breve. Saiu pelo salão pobre de entrada a cantarolar pálida até a estreita rua do bairro simples e que para sua alegria não alarmava sua presença, tampouco a preferência pela recepção de vez em quando. Mesmo assim sentia falta do reconhecimento, "melhor assim" era o que pensava, ninguém dava por ela como prostituta, tampouco da opção por este ofício. E no entanto com sua condição alegrou-se ao ganhar um sorriso duma velhinha que a flagrou fazendo o sinal da cruz sob o coração quando atravessou a calçada da porta da igreja, sentiu-se contida na pureza que a velha pensou que tinha e por isso naquele dia em especial não se culpou pelos seus pecados.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

24/07/13


      O sol brilha forte meu cabelo cacheado, ilumina minhas vistas fazias totalmente. Penso que hoje é assim submisso aos ontens  mais comuns desses dias de desperdício de vida que eu mesma não poderia entender. São tempos difíceis de derrapadas e perdas sentimentais, materiais, sem importância alguma. Escrevo meu nome num papel achado sob a mesa de centro, o que tocava meus ouvidos era qualquer sinfonia de um macaco velho de velhos dedos acostumados, li meu nome: impressionante contraste com o papel branco, manchei-o de vento brando sem temor de recompensa, é o tempo que banaliza meu nome e seus enfeites de hipocrisia, desventura, arte, carência, defeitos. Chora uma criança longe no tempo por não ter brincado, entristece um pouco mais perto com uma outra cara a mesma criança ao recordar seus intempéries, no entanto anestesiada sorri a própria com outra idade o reencontro com a destreza, escape de todas as mazelas que lhe trouxe seu infortúnio de vida próspera. Re-lê o papel manchado, adormece inapta a qualquer consagração. Abençoa com palavras a lua amarela da noite anterior, a tresloucada  fêmea,  doce demente ao compasso que seus passos são dados ainda com um apoio maternal de terror, são seus primeiros passos os parágrafos acompanhados com toda atenção pela coruja na janela, no seu canto embala o frio num sotaque especial que para os antigos é mortal mas para mim, o infantil reflexo da solidão silenciosa da madrugada mau dormida.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ao Acaso, confusão e poesia. : 24/06/13

Ao Acaso, confusão e poesia. : 24/06/13: Olá meu jovem da janela Que canta, dança, quebra, Ao passo que eu passo na porta, A tua cara manhosa Que só com fome me vela. Q...

24/06/13

Olá meu jovem da janela
Que canta, dança, quebra,
Ao passo que eu passo na porta,
A tua cara manhosa
Que só com fome me vela.

Queira beijar os meus sóis
Assim que fiquemos pois
Sobre os ninhos  que almejamos
Colaremos sob penas sujas, pequenas,
Infinitas como fantasia dos frutos que eu mesma chocarei.

Então mais uma vez debruçados
Nos olharão assombrados sobre o sangue em nossas mãos,
“não matamos ninguém” gritaremos
Em vão que o sangue é resultado de calos nas mãos.

Assobios de pássaros nesse quintal do mundo
Em que serei sujismundo,  não de uma lama só.
Irei provar da água mais limpa
Da fonte mais linda do teu olhar.

Transformando minha fraqueza em certeza de amar
Vou me guardar no seu pescoço em noite como essa
Em que me apaixono, tem luar.

Vou apagar essa rima e começar outra vida
E apostar: “se eu morresse amanhã”?
Só pra amarrar meu cadarço
Pra não correr descalço sobre tanto chão

“Vem comigo”
Te chamo como um sapo
Que enche o papo pra parecer maior
Pequena?  Confesso!
Não devo mas nego o medo que eu sou.

Todavia, Seja minha via de regra
Te pago em dia com beijos enfim.
Mas pegue minha mão primeiro
Não se aflija no erro,
Está perto nosso fim.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Depois a gente se vira com o que vier

Por que não usar um conjunto de metáforas pra descrever o homem?
Quem poderia pintar um novo Guernica por favor o faça!
Acordo de manhã e escuto alguns pássaros conversando sobre a má noite de sono,
que não houver noite.
Tinha um gato em minha janela ontem, ele queria entrar
disse "miau", eu virei para o canto, dormi, sonhei com o amor.
Essa indiferença relutante que vai desde jogar água pra lavar a calçada até privar o corpo das proteínas da carne.
Até quando vou escutar a leitura de meus olhos gritando emocionados "mataram mais um morador de rua!" ?
Pra que metáforas se a verdade tão explicita já se comunica bem e,
no entanto, é menos importante que a própria fama do acontecido.
Todas as mãos estão atadas até se perceber que ainda nos sobram as pernas.
Que talvez andando por aí chutemos o balde de hipocrisia e desventura
das quais o mundo já transborda.