sábado, 24 de novembro de 2012

Psicografia




        Eu que durante muito tempo pensei ser a ótica de uma justiça infinda em fundamentos, eu que muito tempo fiquei cercada em acomodações e vestígios de amor, eu que muito tempo doei ao trabalho errôneo com apenas uma parte da mente que de tão lícita irritante era, eu. 
        Eu que quis ver o mundo de tantas maneiras indefinidas, de tantas formas irregulares, de cabeça pra baixo testando a tese de Alice, tentei imaginações fantásticas de irrealidade depois de tanta verossimilhança com estúpido mundo real;Eu.
        Eu que em futilidades já me fundei e depois fundei teses sobre a origem desse erro, eu que não pude reconhecer-me nua durante muito tempo em frente ao espelho embaçado. Eu que não posso nem vou desfrutar inseguranças de uma vida que teria, caso pensasse em possibilidades. Eu.
        Eu que adormeço em lenções de nuvens brandas, amigas sinceras que choram minha virtude. Eu que não devo mostrar minha face e durante tanto tempo evitei as máscaras bonitas. Eu que sou o que não devia ser, o que não posso, o que afeta, o que me mancha, o que encerra, o que desfaz e realiza e apaga e refaz e molda e molda... Eu. 
        Eu que não me meço em medidas favoráveis nem me agarro no desprezo ou careza, eu que sou aquilo que caminha sem sair do lugar, helicoides caminhos eternos que em espiral fazem meus erros, erros que aspiram a algo novo,  ideal  tão incompleto e estranho e paciente e tentador... O louco que desprende-se apenas, desfazendo seus feitos, convidando o desconhecido para dividir a mesa. Eu que incompleto me monto como semelhança ou indagação de vários eus que por aí vivem desatinando seus prazeres sob a tela protetora de um semblante que de tão mentiroso costumeiro se faz, seja bonito, seja feio é a capa modesta de um mundo de quimeras.  

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O desventurado


 

 Estirado no chão onde o peso do que acima estava apertava seu peito  sufocando-o. Tossia os últimos suspiros agoniados, singelos acompanhantes daquelas lágrimas que também saiam do corpo como expressão da alma. O pranto de seu espírito era cruel como o de uma mãe que o filho perde, não lhe valia o pó para sanar os pecados, nem os cálices para sua divindade arder.
  Deitou-se nos panos brancos e encharcados de passado como se preso estivesse em grades que de tão reluzentes ofuscavam o prisioneiro. Refletiu: os sapatos que o levava pelas estradas doíam seus pés quando em lugar manso, estagnado em lembranças de expressões celestiais ou diabólicas da beirada do caminho, isso chegava pungente ao peito, lembrava a conveniência de parar.
  A dolência de sua lástima anulava suas feridas abertas que outrora sublime formava sua obra. Recordou as maravilhas e arrogâncias do céu e da terra como quem relembra um amor antigo e roga aceitação de joelhos sob seu túmulo de desordem.
  Levantou sob o teto de culpa que forjava um corpo caído numa postura fixa de quem desiste. Olhando o espelho, lamentou  em sua face tudo o que a mente impiedosamente evocava.

                                                                                                               G.A.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quando em Carolina


Vivia de coragem a triste órfã
perseguindo rabos de ratos do castelo
de pedra, purificava o afã 
de outros dias com os quais mantinha um elo

eterno, de vida ou de perseguição
vadiava o conhecimento
pouco e falso,  da mente de poluição,
das mortes consecutivas fazia lamento.

E não sangrava a pobre 
nem de pão nem de vinho
mas secava sua posse
de fazer-se na beirada do caminho

Quando lhe vinha a falsa mãe
hipócrita, vendava os olhos e tampava os ouvidos
do que exala inúteis argumentos
de fés infundadas.

E quando o pai sábio e morto
lançava um raio frio de olhar
aquietava em medo a subordinar 
àquele que se faz em irrisórios sentimento, adorno.

Aflorava a pequena seus dias
sem crença, sem fatos
sem coisa alguma que pudesse em seguras
terras manter seus fardos.

No acaso de um esmero ainda  fresco
talvez desconfortável e sucumbido ao temor
vivia em melancólica agonia num animalesco
cotidiano de falso amor.

Quanto aos ratos do castelo, não os alcançava
quanto a solidão desamparada em fingimentos, indiferente se fazia
Mas quanto ao real ,tristeza alçava
intermináveis voos interiores e sem alimento o corpo lhe ardia.

Sobrou-lhe  sentimento
talvez de uma coesão poética
já que de coragem vivia a triste órfã
quando em plena Carolina se fazia.

                                                           G.A.







quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O canteiro

Acenei para o homem do outro lado da rua,
ele devolveu o aceno como quem esperava aproximação, abraço
sorriu, atravessou estre os carros até a menina de cara nua
que também sorria observando o moço que a mantinha como num laço

E não é que era mesmo um laço!
Talvez fosse o jogo estranho dos pés,
como a abraçava transportando-a para outro canto do espaço.
O fato é que a mistura era feia e bela ao mesmo passo.

Tocaram-se num abraço como quem conforta um mundo
imundo
esmiunçado em
mudos miúdos.

Ao lado daquele templo
faziam-se vivas  flores
no canteiro da esquina sendo
o elo sagrado entre a rua e os transeuntes

Haviam ali novas e velhas armações
umas  pálidas, inseguras
outras pedantes e já murchas

Haviam ali covas e berçários
de pura beleza
de dura incerteza.

Eram rosadas de vergonha,
vermelhas e tristonhas
aquele conjunto de órfãs histórias
de primavera ou de verão.

Isso ao lado de um espelho
feio e desarranjado
pintado de irritação.

Eram a moça,
a rosa
o homem,
e as pétalas no chão.

                                                                   G.A.






quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O canto mudo

E se me olhardes com teus olhos de ignorância
tua caída será longa no descaso
com arrogância permitida, tua estância
encher-se-á de negro fardo.

Porque daqui são belos o céu do horizonte
e os muros que rodeiam.
Não permitidos são elos de confronte
que os azuis de agora enfeiam.

E como pode sereno tornar-se
a ausência poética em vida?
completa a infelicidade
de quem não sonha, estultifica. 

E sem em respiração rimar-se
Triste torna-se tudo
porque em contrária ordem comporta
aquele que o belo empeçonha mudo.

— Morre covarde, medroso!
Que guarda  a voz no canto dos olhos
na falta de encanto, ocioso!
Guarda teus pés e não lhe rangerão os ossos.

Triste pode ser tua estadia
mas não agrada a falta de sintonia
de quem apenas sobrevive,
não vê que o louvor dos pássaros vive?

Emudeceu teu seio
escureceu tua vista,
a rua já lhe é estranha visita
das estradas de outrora.

Não lhe vem anseio
e agora já dormes,
espera que venha te buscar
a paz que demora.
                     
                                                           G.A.







quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ao viajante morto

Morreu o pobre viajante de pés calejados.
Morreu como não se deve morrer um homem,
como um animal por sua própria criação abandonado
e como quem já olhava para vida com desdém.

Morreu o pobre feitor de questionamentos
pelos quais possuía maiores sentimentos,
construídos a partir da reclusa ordem Ser,
poderia colocar-se em outra lida
no entanto nesta- talvez erroneamente-
decidira permanecer.

E era tão forte o seu lamento
que explodia de tempo em tempo
e já era de isso se esperar
porque paixão tamanha
só concedia um fim: enfadar.

A tolerância já pequena
tonava-se tendenciosa à anulação,
não só da apreciação
mas sangrava a alma do ser: Geena.

Desistência do que se ama sem ganância
e mal sabe da existência do sentimento
quando o que trazia não era alimento
mas desordem, confusão como garantia.

Não se pode esquecer.
Existia aqui um ser.
Amava? sim.
Amava fazer o que sabia fazer.

Morria de tempo em tempo: certo
Mas essa é decorrência do afeto
como flor em seu entretempo
ora apenas bela, ora exala olor.
                                                              G.A.