Se soubesse voar
O careca à minha frente não quis
cantar , disse que não tinha os cabos necessários , a verdade é que não queria
,uma moça se levantou e canta agora , sem instrumento algum “vem cear , o
mestre chama : vem cear” .Ao meu lado direito diaconisas uniformizadas .
Brancas , pretas e amareladas , agora todas de azul. À frente o pastor encara
meu batom vermelho , certamente uma ofensa , em minha ala , muitos chatos e
chatas fingem uma alegria curiosa. À minha esquerda os varões . Porque essa divisão afinal?
Quarenta e cinco lâmpadas
iluminam o local . Observo melhor :um
desfile de moda . Não preciso ficar bonito pra criticar essa ‘coisa’ à qual
chamam religiosidade , mentira! Chamo ‘coisa’ pois sempre conheci como fanatismo , é fato que desde cedo na Igreja é difícil não se enjoar
disto tudo :das palavras repetidas , cantorias repetidas , pessoas repetidas ,
orações repetidas ,pedidos repetidos . Tudo
muito igual .
Não há como não se perguntar do
porque de tudo isso : o porque de ajoelhar e pedir clemencia e pedir por favor
e pedir e pedir. Qual a explicação ?Que poder tem esse tal “nome de Jesus” ?me questiono o quanto posso e suporto.
20:00 horas , é domingo e eu
gostaria de estar em casa comendo ou escutando Zeca ou namorando Hugo ou conversando sobre qualquer coisa com o tal que com certeza
iria contra o que eu falasse mas dialogaria de igual pra igual.Faz calor e faltam 18 dias para o
fim do verão.
O calor das ultimas noites não consegue adentrar meu peito , me sinto tão só quanto um caminhante e tão sem rumo quanto uma bussola de campos invertidos , sinto vontade de vestir um tecido fino florido , andar descalça por uma rodovia fria e sentir um vento interminável que me pegue , me eleve , me tire desde lugar , me faça sentir frio , mas que me faça sentir algo a mais que esse calor , que não me deixe ouvir nada além que o som da brisa batendo em minha vestimenta .
O calor das ultimas noites não consegue adentrar meu peito , me sinto tão só quanto um caminhante e tão sem rumo quanto uma bussola de campos invertidos , sinto vontade de vestir um tecido fino florido , andar descalça por uma rodovia fria e sentir um vento interminável que me pegue , me eleve , me tire desde lugar , me faça sentir frio , mas que me faça sentir algo a mais que esse calor , que não me deixe ouvir nada além que o som da brisa batendo em minha vestimenta .
Se fumasse precisaria de um cigarro , se bebesse de um conhaque , e se soubesse voar ,
precisaria de um mar , onde só pudesse
voar e voar , sem poder parar um pouco e descansar , só poderia me salvar por minhas asas , por
mim mesma .
Preciso lavar-me desses momentos
, isto tem me feito triste , confusa , é uma espécie de obrigação fantasiada de
“é para o seu bem” não é o que parece , pareço uma palhaça. Todos aplaudem a um
deus circunstancial , muitos nunca o sentiram e mesmo assim o seguem , muitos
não creem mas preferem fingir a correr o risco.
O mundo está girando agora .
Neste momento existe alguém do outro
lado do mundo , entediado num escritório , louco pela hora do almoço e aqui
ainda são 20:21 e falta muito tempo pra isso acabar . Quero sair da ‘coisa’ o
mais rápido possível porque ainda faz muito calor e eu ainda não sinto que nada
disso faça sentido.
Gabriela
Alves

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