Descomponha seu compasso
Desfaça o conhecido
Desanime a rotina
Não é seu o livre arbítrio?
Desabafe com a morena que gosta do Chico
Desconforta o que está preso
Desande o perigo
Não é seu o tal segredo que traz como inquilino?
Por tantos anos viu a chuva passar
E nunca reparou que debaixo dela
era era o seu lugar.
Por quanto tempo ainda vai vagar?
Pobre solitário de mãos nuas, vela
tua alma que era era grande, singular.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Descrição da morte
"Oi amor." Ele me disse. Apertou-me com tanta ganância que achei que morria. Não morri, pelo contrário coloquei-me na busca do encanto naquela situação. Abri um sorriso imediato em que imergiam os olhos vazios daquele ser confuso e atormentado e no entanto sublimado para outra vida, ele também sorriu. Talvez quisesse dizer "prazer em te reconhecer ", não o fez apenas continuou a tentar fingir que tudo era como antes. Antes da peste, da praga, da má colheita e da fome.
Ele me disse "oi amor" continuou ali, fingindo, tentando, tentando. Sabia que eu não o reconhecia, não o aguentava tentando a mudança e no entanto ele continuou ali. Fixava os olhos em mim como um demônio desseca a alma de uma pecadora. Ele tentava parecer contínuo e não conseguia: mudava, alternava - eu o poderia reproduzir em um gráfico de seno- mas ele estava ali. Triste como um blues, indeciso como o toque dum blues, explodindo como num canto dum blues. Ele ficava ali e me fazia como quem navega a margem da doença e do tédio. Eu apenas esperava e ele continuou ali.
Tentou falar sobre as ironias do mundo, sobre as peripécias das relações como também dos pecados universais, eu acenei como quem consente, concorda e não precisa desenrolar o novelo de uma discussão limitada pelo que é humano e real. Ele acariciava minha cabeça e eu o olhava apenas. Olhava como quem clama, como quem se ajoelha e pede pela perpetuação da amizade. Me entendeu e atendeu meu pedido. Continuou ali, estagnado no movimento de entreter-me, como quem busca reavivar um corpo morto, vadio mas que ainda brilha, que ainda pode voltar a viver.
Ele me disse " oi amor" e eu respondi "Olá".
Ele me disse "oi amor" continuou ali, fingindo, tentando, tentando. Sabia que eu não o reconhecia, não o aguentava tentando a mudança e no entanto ele continuou ali. Fixava os olhos em mim como um demônio desseca a alma de uma pecadora. Ele tentava parecer contínuo e não conseguia: mudava, alternava - eu o poderia reproduzir em um gráfico de seno- mas ele estava ali. Triste como um blues, indeciso como o toque dum blues, explodindo como num canto dum blues. Ele ficava ali e me fazia como quem navega a margem da doença e do tédio. Eu apenas esperava e ele continuou ali.
Tentou falar sobre as ironias do mundo, sobre as peripécias das relações como também dos pecados universais, eu acenei como quem consente, concorda e não precisa desenrolar o novelo de uma discussão limitada pelo que é humano e real. Ele acariciava minha cabeça e eu o olhava apenas. Olhava como quem clama, como quem se ajoelha e pede pela perpetuação da amizade. Me entendeu e atendeu meu pedido. Continuou ali, estagnado no movimento de entreter-me, como quem busca reavivar um corpo morto, vadio mas que ainda brilha, que ainda pode voltar a viver.
Ele me disse " oi amor" e eu respondi "Olá".
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Pedros
As vezes quando tudo se cala e resta apenas a lembrança, o sentimento que se tem é inferior, quase sonolento, sem fome e naturalidade novamente as coisas se iniciam num caminho obsoleto, seguindo para um confortável mundo de acaso.
E quantos mundos provenientes de diferentes acasos são possíveis? Sempre tive em essência a ideia viva de necessidade e que tudo era movido pela tragédia desta e no entanto percebo agora a verdadeira face do destino: o esperar.
No mínimo idiota ou infantil mas verdadeiro, pelo menos no meu mundinho fechado. Você acorda de manhã pega o jornal... você passa a viajar pelas ineficiências da política, pelo desmazelo do humano e os incidentes que isso causa e mais ainda persegue caras como se pulsasse para lê-las ou analisá-las, ainda mais seus rostos do que seus atos, o motivo de estar ali. Finalmente quando você já reclamou do tempo e do país em que nasceu você joga o jornal de lado e começa seu dia. Nem percebe que usa palavras parecidas com as que leu no jornal em seu diálogo, não percebe que lembra daqueles rostos durante o dia e não se importa ao comentar as notícias vividas por outrem desconhecidos, não se importa se derramou café na roupa enquanto se comovia com o acidente na estrada ou quando indagava números da economia. Você joga o jornal de lado.
Você passa a criar rotinas confortáveis e a esperar, esperar, esperar. Espera que o mundo mude e que você o leia no jornal. Não muda o seu acaso e torna assim seu caso mais um perdido dentre tantos.
É a sua cara que esta no jornal refletida nas diferenças entre o ladrão, o morto, o humorista, o policial, o artista, o editor... é você que não confere acasos mas os deixa fluir e espera...
No outro dia você acorda e sai no portão, pega o jornal do novo dia e poe-se a viajar novamente, inferiorizando o ontem desnecessário e impertinente, você não tem fome e se torna mesquinho na mesa do café enquanto divide a atenção entre os barulhos da esposa e o jornal. Você e eu somos a cara da necessidade, não importa no que finalize, mas a presença do acaso, do descaso é tão enraizada como o café da manhã de frente ao jornal.
E você espera o novo acaso do seu dia, da sua nova rotina a partir daí criada e eternamente sonolenta na incerteza fraca e esperada. Somos todos Pedros esperando o atraso do trem.
G.A.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
A metade
Não me diga... eu sei, sei que não devia; mas aqui, na ilha tudo se alvoroça com grande rapidez. Quero companhia e quero água do poço mas nada está como quero. Tenho que subir muitos metros pra alcançar meu descanso e no entanto sempre desço -o mar é lindo- Queria lhe contar tudo antes que o dia amanhecesse e se saciasse de luz.
Não me diga... sei que não devia lhe escrever porque de onde estás o correio é só de ida, sei que não pode me responder... não porque não deseja ou porque o tédio das palavras te domina -se fosse assim, escritores de milhões de páginas não te agradariam- mas eu preciso falar porque sei que quer responder... então se puder acene e me escute sem travas nos olhos, já que pronuncio ritmado em escrita... como batidas de um coração triste.
Mesmo que balbuciasse uma voz inquieta e implícita de domínios vadios não alçaria mais que voos rápidos, sem muito entendimento do que fazia, sem muita cerca ou cuidado. Palavras são como safras diferentes que quando misturadas podem alegrar com sabores distintamente elegantes em combinação e no entanto ao contrário causar o nojo e descaso. Palavras são vizinhos estúpidos do subúrbio tentando manter uma boa relação. Palavras são perigosas como atrever-se, como jogar-se no caos divino da sina que estas trazem. Aiai e quanto silêncio me acompanha! Quanto desprazer me diverte!
Não posso falar. Sou tola como um amanhecer nublado. Dispensável como dois dias seguidos de chuva. Insensato como escolher um caminho onde não se pode andar. É o que sinto? ou melhor, o que espero que ocorra? Diria que não com esperança mas como quem prevê consequências de invenção. Já viu isso? fascinante! Inquietar-se por escolha, saber que é errado e continuar...
— Coragem errante! Coragem — disse o pirata.
Daí eu não tive essa tal coragem e perdi meu barco, perdi minha tripulação e até meus sonhos. Morri exausta aqui, na praia. Morri porque ninguém escuta aquela que não vai falar sobre o que quer falar. Ela vai falar sobre o que os macacos primitivos podem escutar e acenar porque teme ficar sozinha de novo na ilha. Se isola de deus, isolada do mundo, de si e de seu próprio papel inútil.
— Coragem errante! Coragem — disse o pirata.
Mas eu não o escutei, apenas aquietei-me silenciosa sob o domínio dos que dominam e sob a desvantagem de um medroso. Até você se foi... sem esquinas ou curvas. Traçou algo incompreensível, mas eu te amo porque eu me amo. Talvez esteja louca, mas um solitário então não pode se colocar como remetente e destinatário de duas metades tão diferentes que duas caras possui e no entanto só um corpo controlam?
Loucura é algo inimaginável num lugar assim tão belo e simples que não alcanço com custo ou pesar, mas que foi me dado como um presente... que me ilustra um futuro indominável e um passado colorido tantas vezes que já não sei se é real.
Tua amiga, Carolina.
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