quinta-feira, 8 de março de 2012

A velha


                                                 
                                        
                      
O sol  entrava  pela janela e diferentemente dos outros dias onde delicadamente acariciava com seus raios , naquele instante a luz forte colidia com seu corpo , fazendo-o arder. Pelas janelas não entrava brisa alguma capaz de aliviar aquele sentimento  de culpa .
                Na penteadeira de madeira escura o espelho presente a obrigava  ver o efeito dos anos em sua face e em seu corpo . Sobre a mesa ao lado a escova escondia cabelos brancos frutos do cansaço  , do trabalho ; apenas resultado da vida que escolhera pra si . Carolina olhava fixamente o espelho  e a manhã enchia de claridade todo o quarto porem seus olhos continuavam negros e sem brilho algum .
                Tudo o que fez não foi o bastante para satisfaze-la  , todas as noites perdidas , todos os objetivos alcançados , tudo o que queria conquistado .        
Caroline  nasceu em 14 de julho de  1909 em  Rio   de Janeiro , por um parto em sua própria casa por medico e  enfermeira contratados. Proveniente de uma família rica  , logo  aquela linda menina de cabelos negros e branca pele negaria toda a fortuna por algo maior , desde cedo se comparava a coisas grandiosas como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro com o qual compartilhava a mesma data de nascimento  ,era grande de natureza e servia como cartão postal da cidade , algo que caracterizava a região , ela queria ser assim , no entanto queria se construir sozinha  foi então que começou a negar os bailes fúteis  , os supostos amigos da família e principalmente os ensinamentos  dos deveres da mulher .
 Século XX  , as mulheres começaram uma luta organizada em defesa  de seus direitos   e foi então que aquela corajosa  jovem viu  onde cabia . Numa noite de lua cheia  , a garota decidida fugiu de casa ,  procurou abrigo no casebre da antiga baba que a recebeu de braços abertos , assim como concordou com a luta em que a menina se engajava , o diferencial dela era que tinha conhecimento , fruto dos ensinamentos que recebeu desde cedo , estava agora com 19 anos e uma ânsia enorme em mudar , fazer a diferença .
O ano era de 1928 e em  Mossoró o governador  Juvenal  Lamartine do estado nordestino do Rio Grande do Norte  autoriza o voto da mulher em eleições , a noticia rapidamente se espalhou por todo o Brasil e chegou aos ouvidos de Caroline , era  o sopro na faísca que ela precisava pra fazer a fogueira , ela viu que dai pra frente era lutar . A partir de então  ela  começou a fazer parte de vários movimentos , abandonando assim completamente a mais pequena possibilidade de voltar para família que a procurava  incansavelmente .
Caroline conseguiu entrar para o enorme grupo liderado por Berta Lutz e Nísia Floresta que em 1922 fundaram a Federação Brasileira pelo Progresso  Feminino , que lutava pelo voto  , pela escolha do domicilio e pelo trabalho das mulheres sem a autorização do marido . Ainda era 1928 e Mietta Santiago então advogada conseguiu provar que a proibição do voto feminino contradizia  o artigo 70 da Constituição da República Federativa dos Estados Unidos do Brasil então em vigor , era o inicio da grande luta que se estendeu por 5 anos, então o  código eleitoral elaborado em 1933 finalmente autorizou  o direito a voto e a representação política às mulheres.
Neste momento chegou a família de Caroline a verdade sobre seu paradeiro , quando revelada causou um único sentimento na família , a repulsa . Era inadmissível que uma descendente de uma das famílias mais importantes do Rio se envolvesse em um movimento tido como vergonhoso na época , era a morte da filha única dos nobres do casarão .
Então com 24 anos , a personagem principal desta narração era tida como mal amada assim como todas as mulheres do movimento feminista  , vivia se mudando de uma casa para outra , sem se fixar , sem encontrar alguém com que pudesse conversar um pouco sobre o dia  , a noite  ou qualquer coisa que não  correspondesse a um objetivo do movimento feminista e que não fizesse referencia a direitos da mulher , aquela garota se tornou o próprio objetivo , vivia dos pensamentos que procurava expor e  da diferença que queria fazer .
Trinta anos se passaram  e o que aquela mulher tirara pra si de tudo o que vivera? Trabalhou a vida inteira , conquistou seus objetivos e o movimento que participara ainda estava lá , não se arrependia  mas se sentia só , e sabia que a tristeza que então com 54 anos sentia era consequência do que um dia a motivou a viver e a ser melhor e procurar romper barreiras e  a ser independente . Sentia que  deixava a grandiosidade de tudo e o que a consumia era a solidão , não tinha marido , não tinha filhos , não tinha nem o amor próprio , tudo acabou com o cansaço que a luta deixou em seu corpo e em cada rastro seu .
O espelho  mostrava a Caroline no que ela se transformara : numa velha ,  não desmerecia suas conquistas  mas  a envergonhava e culpava por não poder ter sido mais.                
                                                                    Gabriela Alves

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