Casou-se aos 30 com uma loira da
faculdade. Compartilhavam a paixão pela física , ela também a paixão por ele e
ele pelo desejo de si mudar .
A mãe
adorava a nora . O pai não alterava o semblante .
Longas
conversas nos almoços de domingo , com o
tempo tornaram-no a lembrança de um
sonhador , sozinho não podia continuar sem se frustrar .
Comprou
uma casa , nos fundos fez uma espécie de biblioteca, vários livros mas não
variados , aos poucos a física foi indo embora e só restou a mãe de todas as
ciências . Com o tempo crescia o mistério : o que um velho vazia durante horas
naquele lugar ? A dúvida só crescia como
cresceram-se os filhos e como também estes saíram de casa , mas o velho não
saía daquilo que mais parecia um berço que um quarto cheio de livros .
Dormiu e sonhou:
“
Velho , Joga fora tuas velharias !
A vã
Filosofia , a Filosofia e também sua criação .
Afaste-se delas , morra delas .
Já sois um poeta aposentado , não
fuja da tua condenação”
Eram palavras de uma
velha conhecida .
Acordou
. Não somente do sonho mas também da vida : A velha estava morta , não fazia
diferença , se perturbou com isso ; mas a Vida
, como passara ? não recordava e não era novidade o gosto de sua
ausência .
A Filosofia que segurava era seu peito
, o aparelho de som muito atual aos seus olhos uma vitrola , ouvia “Eu não tenho medo / eu
não tenho tempo / eu não sei voar”. Fechou os olhos cansados , sentiu algo infinito
lhe abalar o peito . A morte o visitava . E assim como viveu , morreu louco .
O velho
que morre velho , com suas velharias que o reinventavam numa nova existência ainda mais doída , mas
realmente existência .
Gabriela
Alves
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