sexta-feira, 9 de março de 2012

Conto do velho



                Casou-se aos 30 com uma loira da faculdade. Compartilhavam a paixão pela física , ela também a paixão por ele e ele pelo desejo de si mudar .
                A mãe adorava a nora . O pai não alterava o semblante .
                Longas conversas nos almoços de domingo  , com o tempo  tornaram-no a lembrança de um sonhador , sozinho não podia continuar sem se frustrar .
                Comprou uma casa , nos fundos fez uma espécie de biblioteca, vários livros mas não variados , aos poucos a física foi indo embora e só restou a mãe de todas as ciências . Com o tempo crescia o mistério : o que um velho vazia durante horas naquele lugar ? A dúvida só crescia  como cresceram-se os filhos e como também estes saíram de casa , mas o velho não saía daquilo que mais parecia um berço que um quarto cheio de livros .
                 Dormiu e sonhou:
                ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­“ Velho , Joga fora tuas velharias !
                A vã Filosofia , a Filosofia e também sua criação .
 Afaste-se delas  , morra delas .
                Já sois um poeta aposentado , não fuja da tua condenação”
 Eram palavras de uma velha conhecida .
                Acordou . Não somente do sonho mas também da vida : A velha estava morta , não fazia diferença  , se perturbou com isso  ; mas a Vida  , como passara ? não recordava e não era novidade o gosto de sua ausência .
                 A Filosofia que segurava  era seu peito  , o aparelho de som muito atual aos seus olhos  uma vitrola , ouvia “Eu não tenho medo / eu não tenho tempo / eu não sei voar”. Fechou os olhos cansados , sentiu algo infinito lhe abalar o peito . A morte o visitava . E assim como viveu , morreu louco .
                O velho que morre velho , com suas velharias que o reinventavam  numa nova existência ainda mais doída , mas realmente existência .
                                                                                                         Gabriela Alves


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