— Que isso que te traze aqui pequena?
Este fim te findou? Não se preocupe, o que mais te mata agora é teu início, minha menina.
Me manda nada humana! Nada sois e agora entende que és mortal e só nisto alia sua alma. Agora contente fica porque não mais o peso da vida ou da ida -ainda não sei- te consome.
Por assim ser, tem sua salvação. Pequena.
O papel deixou cair no chão o moço já velho. Olhou o cadáver, sorriu ao mesmo passo que a morta se comportou como tal azulando a face. O homem velho saiu do cemitério aflito, talvez chateado mas incrivelmente escasso de culpa e vaidade. Não chorou, apenas percebeu a falta da boa e velha Carolina.
Deixou uma rosa branca em sua cabeceira durante todos os dias da semana seguinte à morte, quando enfim as rosas não mais surgiram no móvel velho, o velho homem partiu para acompanhar numa dança a condiscípula.
G.A.
ao comparsa
sábado, 22 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
O Velho
O velho ajeitou a câmera no apoio de forma que pudesse girar o instrumento em 360º sem quebrar a linha horizontal de visão.
A praça estava movimentada, algumas crianças brincavam de roda, os jovens enamoravam uns aos outros e os velhos davam comida aos pássaros enquanto o dono expectava a tarde de domingo.
Dali do centro do conteúdo daquele subúrbio comparou em sua gravação as casas modernas que rodeavam a praça tão antiga e no entanto vítima de esmero.
Passou a tarde por detrás do foco, apreciando tudo se dissipar. O sol baixou ao Oeste impondo fim à cantiga. Como as crianças, os pássaros buscaram lar, o casal de velhos de mãos dadas e se foram assim como os jovens que abraçados seguiram adiante para fora dali.
Vazia ficou a praça. Desligou o objeto e andou até sua moradia.
Adentrou, a igualdade na disposição dos móveis o incomodou pela primeira vez em anos. Sentou-se, a poltrona fria e pequena, de forma inesperada o acolheu. Talvez lhe tenha ocorrido a ausência da mulher, dos filhos, dos netos. Ajeitou-se no assento e imóvel naquela sala escura e triste poi-se a ver a claridade e alegria daquela tarde, pela pequena câmera entre as mãos.
Logo veio o cansaço e o sono, dormiu como um filho nos braços da mãe.
A praça estava movimentada, algumas crianças brincavam de roda, os jovens enamoravam uns aos outros e os velhos davam comida aos pássaros enquanto o dono expectava a tarde de domingo.
Dali do centro do conteúdo daquele subúrbio comparou em sua gravação as casas modernas que rodeavam a praça tão antiga e no entanto vítima de esmero.
Passou a tarde por detrás do foco, apreciando tudo se dissipar. O sol baixou ao Oeste impondo fim à cantiga. Como as crianças, os pássaros buscaram lar, o casal de velhos de mãos dadas e se foram assim como os jovens que abraçados seguiram adiante para fora dali.
Vazia ficou a praça. Desligou o objeto e andou até sua moradia.
Adentrou, a igualdade na disposição dos móveis o incomodou pela primeira vez em anos. Sentou-se, a poltrona fria e pequena, de forma inesperada o acolheu. Talvez lhe tenha ocorrido a ausência da mulher, dos filhos, dos netos. Ajeitou-se no assento e imóvel naquela sala escura e triste poi-se a ver a claridade e alegria daquela tarde, pela pequena câmera entre as mãos.
Logo veio o cansaço e o sono, dormiu como um filho nos braços da mãe.
Sufocada foi como morri. O cadarço de seu tênis tirou-me o fôlego enquanto eu apenas admirava seu rosto ainda tímido em sua promessa.
Quando pela última vez senti o toque leve do ar adentrando meu corpo conhecido, tornei simpática a expiração fazendo com que a culpa de meus dias se dissipasse com o último suspiro. Ele me fez um favor. Levou-me para longe, um mundo diferente onde santos inexistem em realidade e utopia fantasia os dias, transforma os passos em versos de um poema infinito.
Sentei e esperei, sabia eu que logo vinha me acompanhar, veio. Estendendo o braço para me dar a mão, sorriu felizmente o azul de uma história de confusão e paz. Andamos pela morte tornando a existência o lado de cá -ou lá, dependendo de sua estação- Como companhia o companheiro que por assim se fazer se torna seu melhor.
Sufocada foi como morri. O seu beijo sugando meu fôlego, minha vida e no entanto colocando-me numa nova realidade, enquanto eu admirava a beleza daquele momento, ele não mais tímido em sua promessa de fidelidade: matar-me eternamente sendo o meu melhor e quem saber envenenando-me com uma pitada de sua arte.
G.A.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Saiu da rotina, abriu a cortina... Esta não é Carolina?
Pedi aos céus descanso,
pedi aos pés desânimo,
pedi à lida desencargo.
Saí pra tenta me divertir
no acaso que permiti aos acontecimentos.
Tropecei numa pedra que no chão a muito se fazia estagnada
o desequilíbrio me levou ao solo,
a cabeça abriu como um vaso de flores que já estava trincado.
As minhas flores já estavam murchas
e a terra seca estava.
me perguntei se
"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino" (seria...)
Eu não! Esqueci Manuel.
Levantei,
pus-me a andar
observando melhor o caminho...
Ao mesmo tempo a cabeça parcialmente endoidecida
poi-se a dirigir um compasso dois por quatro
impedindo meus pés de recusarem
adentrar talvez na dança triste apaixonada.
Naquele palco,
mundano de paixões exageradas
aliviando a regra de uma rotina solitária.
G.A.
pedi aos pés desânimo,
pedi à lida desencargo.
Saí pra tenta me divertir
no acaso que permiti aos acontecimentos.
Tropecei numa pedra que no chão a muito se fazia estagnada
o desequilíbrio me levou ao solo,
a cabeça abriu como um vaso de flores que já estava trincado.
As minhas flores já estavam murchas
e a terra seca estava.
me perguntei se
"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino" (seria...)
Eu não! Esqueci Manuel.
Levantei,
pus-me a andar
observando melhor o caminho...
Ao mesmo tempo a cabeça parcialmente endoidecida
poi-se a dirigir um compasso dois por quatro
impedindo meus pés de recusarem
adentrar talvez na dança triste apaixonada.
Naquele palco,
mundano de paixões exageradas
aliviando a regra de uma rotina solitária.
G.A.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Respiração
Inspiro,
O ar entra obtuso pelas narinas
alimentando meu ser.
Ser que julga e retém julgamentos
mas suspira!
(des)espera.
Expiro,
toda carga inevitável
se torna ainda mais pesada
como se esgotasse do ser a fé
e toda camomila não fosse bastante
já que emana raiva do pobre.
Não! Bastou o cálice que endoideceu,
bastou a vida que a fez sorrir,
bastou o cansaço que a colocou no pó.
Respiro,
não de alívio,
não de necessidade
mas de vontade
de não mais ser aquilo que espera.
Mas tornar aquilo que comum era
em sublime inesperado.
domingo, 9 de setembro de 2012
Reminiscência
Os braços se deixaram cair, colidindo com o quadril magro e pesando os ombros já curvados. A cabeça olhava para baixo vendo as coxas descobertas onde as veias azuis mais pareciam desenhos de rios num mapa, rios que levariam a lugar algum onde batimentos quaisquer seriam invisíveis num dia como aquele. Ouvindo a cama rangendo levantou, nada a fazer, ninguém pra ver, a cabeça dolorida do ultimo gole do sábado e a TV na sala zunindo carros e uma voz conhecida. Pensou alguma coisa sobre o homem que estava na sala mas logo se esqueceu, enfim não conseguiu recordar o nome do rapaz.
Devaneio da noite à perturbou e agora era o que o sol fazia, ele entrava pelo quarto de tal forma que seus olhos quase fechados ainda doíam com tanta claridade, dirigiu-se ao espelho. Seu corpo nu nada de mais revelava, nem era atrativo nem era desprezível. Esguio desde a adaptação ao vício e marcado desde a culpa por este. Pensou no domingo, pensou na gentileza dos móveis velhos ainda aguentarem, pensou no homem novamente e seus pés a levaram a sala onde o tal rapaz num esforço quase imperceptível desviou o foco para a esposa, não com desprazer ou repulsa, seus olhos revelavam costume e confortabilidade, poi-se de pé e abraçou-a pra cair logo depois no sofá . Acabou.
Um choro a fez acordar assustada, levantando-se depressa indo ao quarto ao lado, o filho chorava mas acalmado pelo pai logo calou-se num sono, reparou o corpo maior e mais forte como também coberto pela camisola florida, contou do sonho ao marido.
"Acalme-se Carolina, foi só um sonho ruim", mas voltando ao seu quarto e observando os braços, calou os pensamentos nas marcas que ainda estavam lá e seus olhos ainda vazios surpreenderam-se com uma lembrança de quem sabe outra vida.
G.A.
Devaneio da noite à perturbou e agora era o que o sol fazia, ele entrava pelo quarto de tal forma que seus olhos quase fechados ainda doíam com tanta claridade, dirigiu-se ao espelho. Seu corpo nu nada de mais revelava, nem era atrativo nem era desprezível. Esguio desde a adaptação ao vício e marcado desde a culpa por este. Pensou no domingo, pensou na gentileza dos móveis velhos ainda aguentarem, pensou no homem novamente e seus pés a levaram a sala onde o tal rapaz num esforço quase imperceptível desviou o foco para a esposa, não com desprazer ou repulsa, seus olhos revelavam costume e confortabilidade, poi-se de pé e abraçou-a pra cair logo depois no sofá . Acabou.
Um choro a fez acordar assustada, levantando-se depressa indo ao quarto ao lado, o filho chorava mas acalmado pelo pai logo calou-se num sono, reparou o corpo maior e mais forte como também coberto pela camisola florida, contou do sonho ao marido.
"Acalme-se Carolina, foi só um sonho ruim", mas voltando ao seu quarto e observando os braços, calou os pensamentos nas marcas que ainda estavam lá e seus olhos ainda vazios surpreenderam-se com uma lembrança de quem sabe outra vida.
G.A.
sábado, 8 de setembro de 2012
A doida da rua das Mangueiras
Recostou-se na poltrona deixando o corvo de lado, observou logo através da janela o que o vento fazia com a mangueira da frente, ele brigava com o vegetal forçando-o a deixar seus filhos prematuros escorrer para o chão, batendo contra o inevitável fim do voo. Os olhos logo voltaram para o lado de dentro do cômodo, deteve-se na escrivaninha empoeirada que recordou ser o lugar de mágoas. Tristezas de um trabalho mal feito, impureza de uma arte limitada e a mudez de uma voz gritada tantas vezes mas que por ser tão vadia não encontrava ouvidos ou sequer um "sim, continue".
Fixou-se primeiro a angústia, depois o descaso e por último a desistência e a culpa e como consequência de tudo, idas a Casa Verde.
É engraçado como os loucos são -ou como se fazem- principalmente aqueles que se guardam no meio intelectual, não se pode dizer que vivia de livros e reflexões, isso era intercalado com os episódios da Sr. Mangueira batendo à porta pra entregar comida à filha e também para lhe obrigar a tomar banho e as vezes mima-la com o chá de ópio tão valorizado pela pequena Carolina. Bem, pequena é quase uma mentira já que se passava dos trinta mas o modo como se humilhava e até mesmo sua postura permite tal adjetivo.
Foi um surto o motivo daquilo tudo, um dia daqueles em que se levanta pra xingar as coisas e bater o dedo mínimo nos móveis. Ela era boa no que fazia mas não era nascida pra aquilo, manipular as pessoas é uma arte muito perigosa e foi num desses ensaios que se meteu a endoidecer, ensaiar a malandragem com o espelho é realmente infantil e mais infantil é cair na própria malandragem. Fingir é lindo mas requer muita dedicação e cuidado, porque pra ser convincente o ser deve estar convencido e nem sempre desconvencer o eu é possível. A regra simples das coisas é que 1 é 1 e pronto, mas quando 1 vira 2, e desvira, vira 1 de novo, e volta a mudar, vira 3... babel.
Talvez agora recostaria sua mente numa arte qualquer que para os loucos pode ser mais fácil, ou talvez desanimasse na vida e procurasse refujo com as minhocas, mas ela era tão nítida em argumentos, se bem que nunca ditos de uma vez e quase sempre interrompidos com um silêncio súbito e estranho, mas aquele olhar cínico parecia julgar a si mesma enojada e raivosa, não como quem quer voltar mas quem quer progredir e no entanto não pode como correntes que prendem o corpo no mesmo lugar, sempre, mas o corpo cresce, as correntes apertam e voilà: Loucos varridos... e mais comuns do que julgam os normais. Nem sempre varridos, aliás a maioria é acolhida e cuidada como um ser especial e talvez sejam, mas o cuidado é a corrente, e o louco precisa da corrente, não pra qualquer outra coisa que não seja alimentar sua loucura.
A Carolina não têm aquilo que se chama de história, ela repete os dias e só muda as reflexões, ela não limpa a mesa, ela não se limpa, ela só respira e vive a doidice implantada em suas veias, talvez os outros sejam todos Carolinas de correntes muito largas, tão largas que os deixam esquecer da existência destas, mas " A vida é só uma espécie de refúgio para aqueles que não se servem mais de novidades mas apenas de desprazeres provocados pelo modo vadio de trancar uma sina num forte, como se fosse esta um grande tesouro. E aqueles que não mais acreditam nesta riqueza são, são... ... " já dizia a doida da rua das Mangueiras.
G.A.
Fixou-se primeiro a angústia, depois o descaso e por último a desistência e a culpa e como consequência de tudo, idas a Casa Verde.
É engraçado como os loucos são -ou como se fazem- principalmente aqueles que se guardam no meio intelectual, não se pode dizer que vivia de livros e reflexões, isso era intercalado com os episódios da Sr. Mangueira batendo à porta pra entregar comida à filha e também para lhe obrigar a tomar banho e as vezes mima-la com o chá de ópio tão valorizado pela pequena Carolina. Bem, pequena é quase uma mentira já que se passava dos trinta mas o modo como se humilhava e até mesmo sua postura permite tal adjetivo.
Foi um surto o motivo daquilo tudo, um dia daqueles em que se levanta pra xingar as coisas e bater o dedo mínimo nos móveis. Ela era boa no que fazia mas não era nascida pra aquilo, manipular as pessoas é uma arte muito perigosa e foi num desses ensaios que se meteu a endoidecer, ensaiar a malandragem com o espelho é realmente infantil e mais infantil é cair na própria malandragem. Fingir é lindo mas requer muita dedicação e cuidado, porque pra ser convincente o ser deve estar convencido e nem sempre desconvencer o eu é possível. A regra simples das coisas é que 1 é 1 e pronto, mas quando 1 vira 2, e desvira, vira 1 de novo, e volta a mudar, vira 3... babel.
Talvez agora recostaria sua mente numa arte qualquer que para os loucos pode ser mais fácil, ou talvez desanimasse na vida e procurasse refujo com as minhocas, mas ela era tão nítida em argumentos, se bem que nunca ditos de uma vez e quase sempre interrompidos com um silêncio súbito e estranho, mas aquele olhar cínico parecia julgar a si mesma enojada e raivosa, não como quem quer voltar mas quem quer progredir e no entanto não pode como correntes que prendem o corpo no mesmo lugar, sempre, mas o corpo cresce, as correntes apertam e voilà: Loucos varridos... e mais comuns do que julgam os normais. Nem sempre varridos, aliás a maioria é acolhida e cuidada como um ser especial e talvez sejam, mas o cuidado é a corrente, e o louco precisa da corrente, não pra qualquer outra coisa que não seja alimentar sua loucura.
A Carolina não têm aquilo que se chama de história, ela repete os dias e só muda as reflexões, ela não limpa a mesa, ela não se limpa, ela só respira e vive a doidice implantada em suas veias, talvez os outros sejam todos Carolinas de correntes muito largas, tão largas que os deixam esquecer da existência destas, mas " A vida é só uma espécie de refúgio para aqueles que não se servem mais de novidades mas apenas de desprazeres provocados pelo modo vadio de trancar uma sina num forte, como se fosse esta um grande tesouro. E aqueles que não mais acreditam nesta riqueza são, são... ... " já dizia a doida da rua das Mangueiras.
G.A.
Carta
Sonhos, numa data imprecisa de um tempo que é tímido
Querido,
Não me lembro dos porquês e não estou aqui pra te te julgar, me recordo de suas últimas vestimentas e do modo como me tratava e de como eu te queria bem, nada mais me vem agora. Não quero que me leia como alguém que teme um "não" ou como alguém que não sugere solução alguma pra um problema assim, quero que volte como um amigo, um irmão. Eu sinto falta do que você fazia primeiramente, em sua solidão me colocando em planos diferentes mas sempre importantes, queria seu abraço agora, que você perguntasse o que sou agora, pra que eu infelizmente dissesse "estou suja e gorda", você poderia me lavar e me colocar numa dieta, mas você não se lembra mais de mim, não cuida, não me quer. Prefere voltar com seus erros, defeitos e mentiras, odeia quando te faço doer e se embriaga pra fingir minha inexistência. Só me vê em sonhos que prefere chamar de pesadelos e "enxaqueca", eu ainda estou aqui, pesando o seu pensamento. Queria que voltasse pra mim como quem volta para um filho ou uma mãe. Eu não posso mais te controlar porque você se faz tao longe e corrompido que perdeu o que importava, mas eu vou te esperar, mesmo gorda, suja, feia. Ainda sou sua e mereço respeito e dedicação. Ainda te quero bem.
Querido homem, te espero,
Sua Consciência.
Querido,
Não me lembro dos porquês e não estou aqui pra te te julgar, me recordo de suas últimas vestimentas e do modo como me tratava e de como eu te queria bem, nada mais me vem agora. Não quero que me leia como alguém que teme um "não" ou como alguém que não sugere solução alguma pra um problema assim, quero que volte como um amigo, um irmão. Eu sinto falta do que você fazia primeiramente, em sua solidão me colocando em planos diferentes mas sempre importantes, queria seu abraço agora, que você perguntasse o que sou agora, pra que eu infelizmente dissesse "estou suja e gorda", você poderia me lavar e me colocar numa dieta, mas você não se lembra mais de mim, não cuida, não me quer. Prefere voltar com seus erros, defeitos e mentiras, odeia quando te faço doer e se embriaga pra fingir minha inexistência. Só me vê em sonhos que prefere chamar de pesadelos e "enxaqueca", eu ainda estou aqui, pesando o seu pensamento. Queria que voltasse pra mim como quem volta para um filho ou uma mãe. Eu não posso mais te controlar porque você se faz tao longe e corrompido que perdeu o que importava, mas eu vou te esperar, mesmo gorda, suja, feia. Ainda sou sua e mereço respeito e dedicação. Ainda te quero bem.
Querido homem, te espero,
Sua Consciência.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Bela orquestra
O cenário era sombrio
havia dor, sangue e choro
Uma mãe no entanto , sorria o mais doce mel
que em gotas traduzia o momento como o mais belo
O mais belo da existência inteira e primitiva
corria a calda açucarada de vida e ternura
Uma arte nova surgia
como o sol
despertando o frio da noite
em reflexos de luz
Não havia só amor naquele lugar
frio , escuro e horrendo
havia criação
maestro Acaso .
G.A.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Quando
Quando num impulso a morte alcançar meu corpo, tornarei-me grata.
Quando então a dor fazer a mente subentender o que acontece, aliviada me sentirei.
Quando o sol colocar seus raios em minha face numa última tarde quente de vida, então haverá festa.
Quando...
e com tanta imprecisão meu corpo se elevará ao chão
minha alma, no subsolo divino se estenderá.
Ah! Em minhas vestes se expressará minha pureza, branca
em minhas mãos o trabalho lhes será explícito
em meu semblante haverá sorriso grato ao sentimento primeiro.
A alegria emana da tristeza alheia de outros momentos
em comparação.
Já o alívio se dá apenas após ao convencimento da presença do cansaço.
Quanto a festa, pode ser qualquer coisa, até voltar depois de um tempo, à vida
à escrita de uma vida.
mesmo que para isto
tenha que ser jogada fora
as vestes desse corpo que em festa se faz
em brancos panos,
em mãos calejadas,
em sorriso,
semi-morto.
G. A.
06/09/2012
Quando então a dor fazer a mente subentender o que acontece, aliviada me sentirei.
Quando o sol colocar seus raios em minha face numa última tarde quente de vida, então haverá festa.
Quando...
e com tanta imprecisão meu corpo se elevará ao chão
minha alma, no subsolo divino se estenderá.
Ah! Em minhas vestes se expressará minha pureza, branca
em minhas mãos o trabalho lhes será explícito
em meu semblante haverá sorriso grato ao sentimento primeiro.
A alegria emana da tristeza alheia de outros momentos
em comparação.
Já o alívio se dá apenas após ao convencimento da presença do cansaço.
Quanto a festa, pode ser qualquer coisa, até voltar depois de um tempo, à vida
à escrita de uma vida.
mesmo que para isto
tenha que ser jogada fora
as vestes desse corpo que em festa se faz
em brancos panos,
em mãos calejadas,
em sorriso,
semi-morto.
G. A.
06/09/2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Peripécias
O túmulo era belo apesar de simples. Em volta do sepulcro flores espalhadas, já que do enterro não se passaram nem 1/6 de dia. Brancas, amarelas e vermelhas, mais numerosas as brancas em respeito à morta. Algumas nuvens tampavam algumas partes do céu e ventava forte, no entanto o sol continuava a brilhar fazendo tudo refletir.
Voltando ao enterro: belo, a defunta no centro de todos, as tias e a mãe chorando como doidas desafinando um coral. Os homens da vida da mulher também ali estavam: o pai, o marido, dois dos três filhos e o Marcos enterrado à esquerda. Cabeças abaixadas e atônitos, silenciosos ao acaso do fato.
Do marido ninguém sabia como estava em pé, já teria passado pela cólera, pela febre e era velho a ponto de usar duas bengalas, mas vivia. Completava a enterrar as três pessoas que lhe valeram, uma esposa, um filho e agora Carolina, era grande o tormento do idoso mas o semblante mais revelava costume com a morte do que dor.
Carolina foi mimada, nasceu mulher e como consequência insistia em 'dar trabalho', contestando tudo, reclamando, ela não sabia o que era conformação. Belos traços ela tinha, os olhos dessecavam o foco, seios e quadril fartos, morena como a mãe e desprezível como o pai.
Quando saiu de casa para viver com um namoradinho levou umas maldições da mãe e um lombo leve, e só isso levou. Depois de vários tropeços, teve um filho com um homem bom, um daqueles que pagam sapatos, ela tinha mania de confundir o moço pela manhã, trocando sempre os móveis de lugar, quando à noite iluminava o lugar pra julgar a modificação, pela noite ela também se firmava na posição de satisfazer o marido (meretriz formada em técnicas de perpetuar amores). O fato é que o Marcos era disposto: ora estavam de pé, ora um deitava, depois trocavam as posições. Não se pode dizer que eram infelizes, mas o delegado não tinha muitos encantos, ele era feio. Tinha uma corcunda que o impedia de se sentar normalmente e sempre que se dirigia à mulher seu ponto de vista se restringia ao busto, talvez por isto era tão apaixonado, não era obrigado a encarar aqueles olhos famintos de alma. Não tinha muito dinheiro mas comprava sapatos e isso bastava.
Certa vez se fizeram, após o jantar, sentados na saleta branca da frente e como sempre, Carolina posicionou alguns castiçais no alto dos móveis, ventava muito e as janelas abertas foi o inicio do erro: o vento entrou, apagou as velas, mexeu nos papéis em cima da mesa e por fim derrubou um castiçal leve que se fazia em cima do relógio, ao lado do sofá.
O Marcos morreu com a ponta do bendito enfiada na corcunda, sangrou até o fim: Peripécias.
Carolina agora com um filho e com uma herança ridícula dirigiu-se ao centro com o 'sem pai' que por ser indiferente à história não merece descrição. Cidade feia mas rentável, dirigiu-se logo aos teatros onde poderia arranjar emprego. Já se passava a moça das duas décadas, continuava linda e se igualava a perfeição fingindo num palco.
Nas cenas cresceu, mas a noite não era feita só de peças, pra não se sentir sozinha a mulher escolhia companheiros, numa dessas caídas engravidou novamente e como foi com o último filho tudo se repetiria: Descaso com a cria, eterno retorno à criação.
A esta altura era apaixonada por vestidos, comprava um por dia e tantos outros ganhava de seus admiradores. Certo era que nem na gravidez seus lucros diminuíram, o teatro e a prostituição lançaram-na ao céu de riqueza e bairros nobres, mas nem rica e poderosa conseguia deixar a vida nos palcos, era ali que realmente se satisfazia.
Numa dessas apresentações algo realmente a atraiu: ele era velho, os cabelos poucos e brancos enfeitavam a cabeça, os óculos disfarçavam os olhos caídos e cansados, a boca era murcha e mesmo que sorrisse, o senador continuava a parecer triste, era magro e as roupas bem cortadas davam-lhe um corpo bonito para um velho.
As noites passaram a ser com o Torres como eram as com o Marcos, o velho era viril, talvez porque a um tempo não praticasse e sentia falta da dança. Apaixonou-se Carolina talvez por isso e apesar das peripécias continuavam juntos. Numa dessas noites um quadro do papa caiu na cabeça do senador enquanto este esperava dos santos o gozo divino do pecado, leu isto como uma intervenção e resolveu contar logo a amante da existência de uma esposa. Carolina que ainda se fazia desinformada apenas se assustou com a demora na revelação, mas não julgou o tal homem.
Passando-se umas horas da revelação o julgamento do namorado veio explícito em todos os jornais: A velha morta de causas naturais. Pensou Carolina nas maldições da mãe e no quanto a morte a cercava ," Peripécias" concluiu.
Casou-se o Torres novamente passado um mês do enterro da antiga esposa, e mais algum tempo foi o bastante para que a nova e fértil esposa lhe desse um filho, e novamente a mesma história: descaso com a cria mas eterno retorno à criação.
Passava a dona da história das três décadas e ainda bela se renovava em perfeição com os presentes do senador que os importava da Europa. Com o casamento veio os tempos de monotonia fora do teatro intercalados apenas pela morte de um filho antigo do senador e pelas dores de cabeça de Carolina, que não tinham razões na existência, tais dores só foram sanadas meses depois quando voltou aos teatros a linda atriz.
O velho a este tempo tinha envelhecido 40 anos em 4 e já não comparecia à mulher e foi numa dessas ausências que veio Bento, um fã jovem, bonito e pobre, lembrava à mulher sua quase pureza. Ele a fazia feliz completando o marido no que ele não mais podia, era um trato perfeito.
Foi mais ou menos nesta época que morreu o primeiro filho, próximo a casa, atropelado por uma carroça: Peripécias. Nada de falta fez o garoto já que caiu um e surgiram quatro. O pai da moça sabido da riqueza da filha e de seu poder reapareceu alegando miséria e fome, trouxe consigo a mulher e duas irmãs viúvas. O pai tinha mesma idade , o dobro do peso e a metade da altura do Torres, era semelhante a um porco em todos os aspectos.
Recompensando-se de qualquer sentimento que não fosse bom a família rica acolheu a pobre fazendo de uma figura engraçada aquele casarão. A moça logo passou a se salvar apenas no amante, não suportando a empolgação do marido com aquela mistura ridícula. O amante era bom, apaixonado e Carolina não podia negar sentimentos. O velho sabia do adultério no entanto se calava em sua paixão e em sua velhice, enciumava-se mesmo com o Teatro, era inadmissível que a mulher do Senador continuasse se expondo de diversas maneiras e caras a qualquer público. Num rompante de raiva e ciúme passou sempre a proibi-la de sair de casa, chegando certa vez a tranca-la em seus aposentos durante dias até que a tal se 'acostumasse' com a ideia. Mas a mulher não se baixou pelo isolamento ou pelas críticas demonstradas a família e nem mesmo pela negação de boas vestimentas, e ainda não com as dores de cabeça que a levavam ao delírio e a repentinos desmaios, calou-se no amor que sentia pelo velho marido. Seu erro dentre tantos.
E dentre esses tantos apareceu o próximo: estar sozinha no salão de entrada, caiu em enxaqueca, deixando seu corpo brutalmente no chão de madeiras nobres, vendada no escuro de um desmaio doloroso foi-se em panos simples e brancos, caiu abrindo a cabeça em sangue, 39, e aspecto tinha de moça: Peripécias. O filho mais novo que a encontrou , nem pranto nem drama apresentou, apenas chamou os outros que estavam no jardim apreciando o sol da bela manhã.
O enterro foi simples mas a mulher se fazia magnífica no centro de todos, num teatro infindo para vermes, minhocas e outras figuras ridículas que encenavam tragédias e comédias sob o ensolarado Rio de Janeiro, cemitério norte à cidade.
G.A.
31/08/12
Voltando ao enterro: belo, a defunta no centro de todos, as tias e a mãe chorando como doidas desafinando um coral. Os homens da vida da mulher também ali estavam: o pai, o marido, dois dos três filhos e o Marcos enterrado à esquerda. Cabeças abaixadas e atônitos, silenciosos ao acaso do fato.
Do marido ninguém sabia como estava em pé, já teria passado pela cólera, pela febre e era velho a ponto de usar duas bengalas, mas vivia. Completava a enterrar as três pessoas que lhe valeram, uma esposa, um filho e agora Carolina, era grande o tormento do idoso mas o semblante mais revelava costume com a morte do que dor.
Carolina foi mimada, nasceu mulher e como consequência insistia em 'dar trabalho', contestando tudo, reclamando, ela não sabia o que era conformação. Belos traços ela tinha, os olhos dessecavam o foco, seios e quadril fartos, morena como a mãe e desprezível como o pai.
Quando saiu de casa para viver com um namoradinho levou umas maldições da mãe e um lombo leve, e só isso levou. Depois de vários tropeços, teve um filho com um homem bom, um daqueles que pagam sapatos, ela tinha mania de confundir o moço pela manhã, trocando sempre os móveis de lugar, quando à noite iluminava o lugar pra julgar a modificação, pela noite ela também se firmava na posição de satisfazer o marido (meretriz formada em técnicas de perpetuar amores). O fato é que o Marcos era disposto: ora estavam de pé, ora um deitava, depois trocavam as posições. Não se pode dizer que eram infelizes, mas o delegado não tinha muitos encantos, ele era feio. Tinha uma corcunda que o impedia de se sentar normalmente e sempre que se dirigia à mulher seu ponto de vista se restringia ao busto, talvez por isto era tão apaixonado, não era obrigado a encarar aqueles olhos famintos de alma. Não tinha muito dinheiro mas comprava sapatos e isso bastava.
Certa vez se fizeram, após o jantar, sentados na saleta branca da frente e como sempre, Carolina posicionou alguns castiçais no alto dos móveis, ventava muito e as janelas abertas foi o inicio do erro: o vento entrou, apagou as velas, mexeu nos papéis em cima da mesa e por fim derrubou um castiçal leve que se fazia em cima do relógio, ao lado do sofá.
O Marcos morreu com a ponta do bendito enfiada na corcunda, sangrou até o fim: Peripécias.
Carolina agora com um filho e com uma herança ridícula dirigiu-se ao centro com o 'sem pai' que por ser indiferente à história não merece descrição. Cidade feia mas rentável, dirigiu-se logo aos teatros onde poderia arranjar emprego. Já se passava a moça das duas décadas, continuava linda e se igualava a perfeição fingindo num palco.
Nas cenas cresceu, mas a noite não era feita só de peças, pra não se sentir sozinha a mulher escolhia companheiros, numa dessas caídas engravidou novamente e como foi com o último filho tudo se repetiria: Descaso com a cria, eterno retorno à criação.
A esta altura era apaixonada por vestidos, comprava um por dia e tantos outros ganhava de seus admiradores. Certo era que nem na gravidez seus lucros diminuíram, o teatro e a prostituição lançaram-na ao céu de riqueza e bairros nobres, mas nem rica e poderosa conseguia deixar a vida nos palcos, era ali que realmente se satisfazia.
Numa dessas apresentações algo realmente a atraiu: ele era velho, os cabelos poucos e brancos enfeitavam a cabeça, os óculos disfarçavam os olhos caídos e cansados, a boca era murcha e mesmo que sorrisse, o senador continuava a parecer triste, era magro e as roupas bem cortadas davam-lhe um corpo bonito para um velho.
As noites passaram a ser com o Torres como eram as com o Marcos, o velho era viril, talvez porque a um tempo não praticasse e sentia falta da dança. Apaixonou-se Carolina talvez por isso e apesar das peripécias continuavam juntos. Numa dessas noites um quadro do papa caiu na cabeça do senador enquanto este esperava dos santos o gozo divino do pecado, leu isto como uma intervenção e resolveu contar logo a amante da existência de uma esposa. Carolina que ainda se fazia desinformada apenas se assustou com a demora na revelação, mas não julgou o tal homem.
Passando-se umas horas da revelação o julgamento do namorado veio explícito em todos os jornais: A velha morta de causas naturais. Pensou Carolina nas maldições da mãe e no quanto a morte a cercava ," Peripécias" concluiu.
Casou-se o Torres novamente passado um mês do enterro da antiga esposa, e mais algum tempo foi o bastante para que a nova e fértil esposa lhe desse um filho, e novamente a mesma história: descaso com a cria mas eterno retorno à criação.
Passava a dona da história das três décadas e ainda bela se renovava em perfeição com os presentes do senador que os importava da Europa. Com o casamento veio os tempos de monotonia fora do teatro intercalados apenas pela morte de um filho antigo do senador e pelas dores de cabeça de Carolina, que não tinham razões na existência, tais dores só foram sanadas meses depois quando voltou aos teatros a linda atriz.
O velho a este tempo tinha envelhecido 40 anos em 4 e já não comparecia à mulher e foi numa dessas ausências que veio Bento, um fã jovem, bonito e pobre, lembrava à mulher sua quase pureza. Ele a fazia feliz completando o marido no que ele não mais podia, era um trato perfeito.
Foi mais ou menos nesta época que morreu o primeiro filho, próximo a casa, atropelado por uma carroça: Peripécias. Nada de falta fez o garoto já que caiu um e surgiram quatro. O pai da moça sabido da riqueza da filha e de seu poder reapareceu alegando miséria e fome, trouxe consigo a mulher e duas irmãs viúvas. O pai tinha mesma idade , o dobro do peso e a metade da altura do Torres, era semelhante a um porco em todos os aspectos.
Recompensando-se de qualquer sentimento que não fosse bom a família rica acolheu a pobre fazendo de uma figura engraçada aquele casarão. A moça logo passou a se salvar apenas no amante, não suportando a empolgação do marido com aquela mistura ridícula. O amante era bom, apaixonado e Carolina não podia negar sentimentos. O velho sabia do adultério no entanto se calava em sua paixão e em sua velhice, enciumava-se mesmo com o Teatro, era inadmissível que a mulher do Senador continuasse se expondo de diversas maneiras e caras a qualquer público. Num rompante de raiva e ciúme passou sempre a proibi-la de sair de casa, chegando certa vez a tranca-la em seus aposentos durante dias até que a tal se 'acostumasse' com a ideia. Mas a mulher não se baixou pelo isolamento ou pelas críticas demonstradas a família e nem mesmo pela negação de boas vestimentas, e ainda não com as dores de cabeça que a levavam ao delírio e a repentinos desmaios, calou-se no amor que sentia pelo velho marido. Seu erro dentre tantos.
E dentre esses tantos apareceu o próximo: estar sozinha no salão de entrada, caiu em enxaqueca, deixando seu corpo brutalmente no chão de madeiras nobres, vendada no escuro de um desmaio doloroso foi-se em panos simples e brancos, caiu abrindo a cabeça em sangue, 39, e aspecto tinha de moça: Peripécias. O filho mais novo que a encontrou , nem pranto nem drama apresentou, apenas chamou os outros que estavam no jardim apreciando o sol da bela manhã.
O enterro foi simples mas a mulher se fazia magnífica no centro de todos, num teatro infindo para vermes, minhocas e outras figuras ridículas que encenavam tragédias e comédias sob o ensolarado Rio de Janeiro, cemitério norte à cidade.
G.A.
31/08/12
Depoimento
— Ele tinha esquecido o chapéu sobre a toalha fina da mesa. Ele adorava aquele chapéu, voltamos.
Chegando, tudo muito estranho: o silêncio abrangendo o que antes era música , o vazio das mesas e a baderna de cadeiras espalhadas pelo salão, nenhum bêbado encostado no balcão do bar e no palco, o blues da noite havia se diluído pelo ar e agora era característica da madrugada. Lembrei-me da mulher triste que cantava triste, os olhos borrados e o copo de bebida em cima do piano ao lado, nunca vazio. O pianista vez em quando a olhava com interrogação, talvez tivessem um caso ou um descaso, nunca se sabe.
As mesas estavam todas imundas, nenhum prato foi retirado, incomum para um restaurante quase mediano de uma cidade mediana.
Enquanto eu sentada à mesa central apenas observava o lugar, meu marido procurava o tal chapéu com nenhuma rapidez, talvez ele também engajasse em qualquer reflexão. Continuei a fazer meus olhos percorrer aquele lugar até que uma taça me chamou a atenção. Uma taça quebrada na mesa próxima ao palco, dirigi-me ao local do crime, o copo deitado sobre a toalha branca não mantinha em seus arredores seus cacos, tentei acha-los, no chão encontrei talvez uma garrafa de vinho que serviu muitas gargantas e mentes, meio cheia e meio fazia, onde as gotas que derramava formara um círculo vermelho e em volta do assunto havia os tais cacos que eu procurava. Enfeitando todo o arredor havia vinho no chão do palco e rodeando a mesa. Me perguntei sobre que crime se tratava e logo me respondi "o de quebrar uma taça e o de desperdiçar vinho", talvez eu tenha sorrido, não me lembro, recordo apenas de que ao me virar, a mesa que antes estava vazia guardava agora o meu acompanhante, ele tinha achado o chapéu e se fazia completo naquele semblante vazio e triste, os olhos parados e o peito ofegante, o que parecia ser sangue escorria de sua fonte e a faca de mesa que parecia perfurar seu peito era o motivo da respiração forte. Ele estava lindo naqueles trajes talvez exagerados para aquele lugar. Me disse "Gostei da noite" e caiu com a face na mesa num barulho estranho. Achei que brincava. Peguei o que restava da taça e coloquei de pé ao seu lado e voltei para o meu palco e sem acompanhamento cantei as nossas músicas pra ele que pela primeira vez seria meu ouvinte.
Até que vocês chegaram e me trouxeram pra esse lugar escuro e cercado de grades me obrigando a falar sobre essa noite. Eu disse tudo o que aconteceu, agora, eu posso ir? Meu marido estará preocupado comigo, aliás, onde ele está? Ele me espera lá fora?
G.A
8:44, manhã de setembro/2012
Chegando, tudo muito estranho: o silêncio abrangendo o que antes era música , o vazio das mesas e a baderna de cadeiras espalhadas pelo salão, nenhum bêbado encostado no balcão do bar e no palco, o blues da noite havia se diluído pelo ar e agora era característica da madrugada. Lembrei-me da mulher triste que cantava triste, os olhos borrados e o copo de bebida em cima do piano ao lado, nunca vazio. O pianista vez em quando a olhava com interrogação, talvez tivessem um caso ou um descaso, nunca se sabe.
As mesas estavam todas imundas, nenhum prato foi retirado, incomum para um restaurante quase mediano de uma cidade mediana.
Enquanto eu sentada à mesa central apenas observava o lugar, meu marido procurava o tal chapéu com nenhuma rapidez, talvez ele também engajasse em qualquer reflexão. Continuei a fazer meus olhos percorrer aquele lugar até que uma taça me chamou a atenção. Uma taça quebrada na mesa próxima ao palco, dirigi-me ao local do crime, o copo deitado sobre a toalha branca não mantinha em seus arredores seus cacos, tentei acha-los, no chão encontrei talvez uma garrafa de vinho que serviu muitas gargantas e mentes, meio cheia e meio fazia, onde as gotas que derramava formara um círculo vermelho e em volta do assunto havia os tais cacos que eu procurava. Enfeitando todo o arredor havia vinho no chão do palco e rodeando a mesa. Me perguntei sobre que crime se tratava e logo me respondi "o de quebrar uma taça e o de desperdiçar vinho", talvez eu tenha sorrido, não me lembro, recordo apenas de que ao me virar, a mesa que antes estava vazia guardava agora o meu acompanhante, ele tinha achado o chapéu e se fazia completo naquele semblante vazio e triste, os olhos parados e o peito ofegante, o que parecia ser sangue escorria de sua fonte e a faca de mesa que parecia perfurar seu peito era o motivo da respiração forte. Ele estava lindo naqueles trajes talvez exagerados para aquele lugar. Me disse "Gostei da noite" e caiu com a face na mesa num barulho estranho. Achei que brincava. Peguei o que restava da taça e coloquei de pé ao seu lado e voltei para o meu palco e sem acompanhamento cantei as nossas músicas pra ele que pela primeira vez seria meu ouvinte.
Até que vocês chegaram e me trouxeram pra esse lugar escuro e cercado de grades me obrigando a falar sobre essa noite. Eu disse tudo o que aconteceu, agora, eu posso ir? Meu marido estará preocupado comigo, aliás, onde ele está? Ele me espera lá fora?
G.A
8:44, manhã de setembro/2012
Se eu fosse triste
Existe em mim a
invenção
sã em propostas e argumentos
a redenção não elaborada e ainda impura
Existe em mim a
sugestão
que em vão se expressa
não, não é assim tão claro
é Carolina
Imensidão de inexistência
que quando no papel se expressa
inerte nasce a flor que logo seca
e some em inocência
Existência
inventa e sugere
sorri à loucura
que é a cura
que atua
na tua
Carolina
Se eu fosse triste
não seria eu
as vestes de Carolina.
G.A.
9:20, manhã de setembro/2012
invenção
sã em propostas e argumentos
a redenção não elaborada e ainda impura
Existe em mim a
sugestão
que em vão se expressa
não, não é assim tão claro
é Carolina
Imensidão de inexistência
que quando no papel se expressa
inerte nasce a flor que logo seca
e some em inocência
Existência
inventa e sugere
sorri à loucura
que é a cura
que atua
na tua
Carolina
Se eu fosse triste
não seria eu
as vestes de Carolina.
G.A.
9:20, manhã de setembro/2012
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