Zeca cantava Versos Perdidos enquanto
a grande esfera ao Norte nascia. O ônibus sacudia minhas lembranças: na noite
anterior ofendi um grande amigo lhe dizendo a verdade , não poderia ser pior.
As nuvens se inundavam num tom
cinzento com um plano de fundo amarelo e uma chuva fina caía de uma nuvem mais
grossa. Me senti sozinha, o friozinho da manhã invadiu minhas narinas passaram
pela traqueia , chegando aos brônquios , nos bronquíolos o oxigênio se ligou às
hemácias que o levaria para o restante do corpo fazendo-o resfriar totalmente.
O restante dos ares inalados também se
ligaram com hemácias que os levariam pelo caminho de volta . Minha expiração
saía quente pelas fossas nasais. Escutava o som nítido de minha respiração
enquanto observava meu modo de tocar a lapiseira.
A estrada era bonita, pequenas
florestas de eucaliptos se intercalavam com extensões de campos. ” As frases
são minhas / as verdades são tuas” Tradução de tudo que sentia naquele momento,
não me arrependera dos acontecimentos da noite passada , mas temia a sinceridade usada . Por alguns
segundos meus olhos viram meus olhos
através do retrovisor interno do ônibus, estavam tristes, secos, as olheiras se
faziam presentes parecendo me envelhecer, a franja tampava minha testa e minha
boca brilhava num batom vermelho melancia. As unhas curtas sinalizavam a
ansiedade que a atormentara durante a noite , parte feita de insônia e parte
feita de sonhos estranhos .
A cabeça doía com pensamentos de
findas, estava realmente triste. Do lado de fora o Sol mudara sua posição , o
ônibus se remexia menos enquanto a paisagem ficava mais lenta . Cold Play
cantaria The scientist. E eu só gostaria de um “está tudo bem”.
Gabriela Alves

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