sábado, 8 de setembro de 2012

A doida da rua das Mangueiras

   Recostou-se na poltrona deixando o corvo de lado, observou logo através da janela o que o vento fazia com a mangueira da frente, ele brigava com o vegetal forçando-o a deixar seus filhos prematuros escorrer para o chão, batendo contra o inevitável fim do voo. Os olhos logo voltaram para o lado de dentro do cômodo, deteve-se na escrivaninha empoeirada que recordou  ser o lugar de mágoas. Tristezas de um trabalho mal feito, impureza de uma arte limitada e a mudez de uma voz gritada tantas vezes mas que por ser tão vadia não encontrava ouvidos ou sequer um "sim, continue".
   Fixou-se primeiro a angústia, depois o descaso e por último a desistência e a culpa e como consequência de tudo, idas a Casa Verde.
   É engraçado como os loucos são -ou como se fazem- principalmente aqueles que se guardam no meio intelectual, não se pode dizer que vivia de livros e reflexões, isso era intercalado com os episódios da Sr. Mangueira batendo à porta pra entregar comida à filha e também para lhe obrigar a tomar banho e as vezes mima-la com o chá de ópio tão valorizado pela pequena Carolina. Bem, pequena é quase uma mentira já que se passava dos trinta mas o modo como se humilhava e até mesmo sua postura permite tal adjetivo.
   Foi um surto o motivo daquilo tudo, um dia daqueles em que se levanta pra xingar as coisas e bater o dedo mínimo nos móveis. Ela era boa no que fazia mas não era nascida pra aquilo, manipular as pessoas é uma arte muito perigosa e foi num desses ensaios que se meteu a endoidecer, ensaiar a malandragem com o espelho é realmente infantil e mais infantil é cair na própria malandragem. Fingir é lindo mas requer muita dedicação e cuidado, porque pra ser convincente o ser deve estar convencido e nem sempre desconvencer o eu é possível. A regra simples das coisas é que 1 é 1 e pronto, mas quando 1 vira 2, e desvira, vira 1 de novo, e volta a mudar, vira 3... babel.
   Talvez agora recostaria sua mente numa arte qualquer que para os loucos pode ser mais fácil, ou talvez desanimasse na vida e procurasse refujo com as minhocas, mas ela era tão nítida em argumentos, se bem que nunca ditos de uma vez e quase sempre interrompidos com um silêncio súbito e estranho, mas aquele olhar cínico parecia julgar a si mesma enojada e raivosa, não como quem quer voltar mas quem quer progredir e no entanto não pode como correntes que prendem o corpo no mesmo lugar, sempre, mas o corpo cresce, as correntes apertam e voilà: Loucos varridos... e mais comuns do que julgam os normais. Nem sempre varridos, aliás a maioria é acolhida e cuidada como um ser especial e talvez sejam, mas o cuidado é a corrente, e o louco precisa da corrente, não pra qualquer outra coisa que não seja alimentar sua loucura.
  A Carolina não têm aquilo que se chama de história, ela repete os dias e só muda as reflexões, ela não limpa a mesa, ela não se limpa, ela só respira e vive a doidice implantada em suas veias, talvez os outros sejam todos Carolinas de correntes muito largas, tão largas que os deixam esquecer da existência destas, mas " A vida é só uma espécie de refúgio para aqueles que não se servem mais de novidades mas apenas de desprazeres provocados pelo modo vadio de trancar uma sina num forte, como se fosse esta um grande tesouro. E aqueles que não mais acreditam nesta riqueza são, são... ... " já dizia a doida da rua das Mangueiras.
                                                                                                  G.A.

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