quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A metade




                        Não me diga... eu sei, sei que não devia; mas aqui, na ilha tudo se alvoroça com grande rapidez. Quero companhia e quero água do poço mas nada está como quero. Tenho que subir muitos metros pra alcançar meu descanso e no entanto sempre desço -o mar é lindo- Queria lhe contar tudo antes que o dia amanhecesse e se saciasse de luz. 
                         Não me diga... sei que não devia lhe escrever porque de onde estás o correio é só de ida, sei que não pode me responder... não porque não deseja ou porque o tédio das palavras te domina -se fosse assim, escritores de milhões de páginas não te agradariam- mas eu preciso falar porque sei que quer responder... então se puder acene e me escute sem travas nos olhos, já que pronuncio ritmado em escrita... como batidas de um coração triste. 
                          Mesmo que balbuciasse uma voz inquieta e implícita de domínios vadios não alçaria mais que voos rápidos, sem muito entendimento do que fazia, sem muita cerca  ou cuidado. Palavras são como safras diferentes que quando misturadas podem alegrar com sabores distintamente elegantes em combinação e no entanto ao contrário causar o nojo e descaso. Palavras são vizinhos estúpidos do subúrbio tentando manter uma boa relação. Palavras são perigosas como atrever-se, como jogar-se no caos divino da sina que estas trazem. Aiai e quanto silêncio me acompanha! Quanto desprazer me diverte! 
                          Não posso falar. Sou tola como um amanhecer nublado. Dispensável como dois dias seguidos de chuva. Insensato como escolher um caminho onde não se  pode andar. É o que sinto? ou melhor, o que espero que ocorra? Diria que não com esperança mas como quem prevê consequências de invenção. Já viu isso? fascinante! Inquietar-se por escolha, saber que é errado e continuar... 

 — Coragem errante! Coragem — disse o pirata. 
                         Daí eu não tive essa tal coragem e perdi meu barco, perdi minha tripulação e até meus sonhos. Morri exausta aqui, na praia. Morri porque ninguém escuta aquela que não vai falar sobre o que quer falar. Ela vai falar sobre o que os macacos primitivos podem escutar e acenar porque teme ficar sozinha de novo na ilha. Se isola de deus, isolada do mundo, de si e de seu próprio papel inútil. 
 — Coragem errante! Coragem — disse o pirata. 
                          Mas eu não o escutei, apenas aquietei-me silenciosa sob o domínio dos que dominam e sob a desvantagem de um medroso. Até você se foi... sem esquinas ou  curvas. Traçou algo incompreensível, mas eu te amo porque eu me amo.  Talvez esteja louca, mas um solitário então não pode se colocar como remetente e destinatário de duas metades tão diferentes que duas caras possui e no entanto só um corpo controlam? 
                          Loucura é algo inimaginável num lugar assim tão belo e simples que não alcanço com custo ou pesar, mas que foi me dado como um presente... que me ilustra um futuro indominável e um passado colorido tantas vezes que já não sei se é real. 
                                                                                                                                                          Tua amiga, Carolina. 

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