quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Peripécias

 O túmulo era belo apesar de simples. Em volta do sepulcro flores espalhadas, já que do enterro não se passaram nem 1/6 de dia. Brancas, amarelas e vermelhas, mais numerosas as brancas em respeito à morta. Algumas nuvens tampavam algumas partes do céu e ventava forte, no entanto o sol continuava a brilhar fazendo tudo refletir.
 Voltando ao enterro: belo, a defunta no centro de todos, as tias e a mãe chorando como doidas desafinando um coral. Os homens da vida da mulher também ali estavam: o pai, o marido, dois dos três filhos e o Marcos enterrado à esquerda. Cabeças abaixadas e atônitos, silenciosos ao acaso do fato.
 Do marido ninguém sabia como estava em pé, já teria passado pela cólera, pela febre e era velho a ponto de usar duas bengalas, mas vivia. Completava a enterrar as três pessoas que lhe valeram, uma esposa, um filho e agora Carolina, era grande o tormento do idoso mas o semblante mais revelava costume com a morte do que dor.
 Carolina foi mimada, nasceu mulher e como consequência insistia em 'dar trabalho', contestando tudo, reclamando, ela não sabia o que era conformação. Belos traços ela tinha, os olhos dessecavam o foco, seios e quadril fartos, morena como a mãe e desprezível como o pai.
 Quando saiu de casa para viver com um namoradinho levou umas maldições da mãe e um lombo leve, e só isso levou. Depois de vários tropeços, teve um filho com um homem bom, um daqueles que pagam sapatos, ela tinha mania de confundir o moço pela manhã, trocando sempre os móveis de lugar, quando à noite iluminava o lugar pra julgar a modificação, pela noite ela também se firmava na posição de satisfazer o marido (meretriz formada em técnicas de perpetuar amores). O fato é que o Marcos era disposto: ora estavam de pé, ora um deitava, depois trocavam as posições. Não se pode dizer que eram infelizes, mas o delegado não tinha muitos encantos, ele era feio. Tinha uma corcunda que o impedia de se sentar normalmente e sempre que se dirigia à mulher seu ponto de vista se restringia ao busto, talvez por isto era tão apaixonado, não era obrigado a encarar aqueles olhos famintos de alma. Não tinha muito dinheiro mas comprava sapatos e isso bastava.
  Certa vez se fizeram, após o jantar, sentados na saleta branca da frente e como sempre, Carolina posicionou alguns castiçais no alto dos móveis, ventava muito e as janelas abertas foi o inicio do erro: o vento entrou, apagou as velas, mexeu nos papéis em cima da mesa e por fim derrubou um castiçal leve que se fazia em cima do relógio, ao lado do sofá.
  O Marcos morreu com a ponta do bendito enfiada na corcunda, sangrou até o fim: Peripécias.
  Carolina agora com um filho e com uma herança ridícula dirigiu-se ao centro com o 'sem pai' que por ser indiferente à história não merece descrição. Cidade feia mas rentável, dirigiu-se logo aos teatros onde poderia arranjar emprego. Já se passava a moça das duas décadas, continuava linda e se igualava a perfeição fingindo num palco.
  Nas cenas cresceu, mas a noite não era feita só de peças, pra não se sentir sozinha a mulher escolhia companheiros, numa dessas caídas engravidou novamente e como foi com o último filho tudo se repetiria: Descaso com a cria, eterno retorno à criação.
  A esta altura era apaixonada por vestidos, comprava um por dia e tantos outros ganhava de seus admiradores. Certo era que nem na gravidez seus lucros diminuíram, o teatro e a prostituição lançaram-na ao céu de riqueza e bairros nobres, mas nem rica e poderosa conseguia deixar a vida nos palcos, era ali que realmente se satisfazia.
  Numa dessas apresentações algo  realmente a atraiu: ele era velho, os cabelos poucos e brancos enfeitavam a cabeça, os óculos disfarçavam os olhos caídos e cansados, a boca era murcha e mesmo que sorrisse, o senador continuava a parecer triste, era magro e as roupas bem cortadas davam-lhe um corpo bonito para um velho.
  As noites passaram a ser com o Torres como eram as com o Marcos, o velho era viril, talvez porque a um tempo não praticasse e sentia falta da dança. Apaixonou-se Carolina talvez por isso e apesar das peripécias continuavam juntos. Numa dessas noites um quadro do papa caiu na cabeça do senador enquanto este esperava dos santos o gozo divino do pecado, leu isto como uma intervenção e resolveu contar logo a amante da existência de uma esposa. Carolina que ainda se fazia desinformada apenas se assustou com a demora na revelação, mas não julgou o tal homem.
  Passando-se umas horas da revelação o julgamento do namorado veio explícito em todos os jornais: A velha morta de causas naturais. Pensou Carolina nas maldições da mãe e no quanto a morte a cercava ," Peripécias" concluiu.
  Casou-se o Torres novamente passado um mês do enterro da antiga esposa, e mais algum tempo foi o bastante para que a nova e fértil esposa lhe desse um filho, e novamente a mesma história: descaso com a cria mas eterno retorno à criação.
  Passava a dona da história das três décadas e ainda bela se renovava em perfeição com os presentes do senador que os importava da Europa. Com o casamento veio os tempos de monotonia fora do teatro intercalados apenas pela morte de um filho antigo do senador e pelas dores de cabeça de Carolina, que não tinham razões na existência, tais dores só foram sanadas meses depois quando  voltou aos teatros a linda atriz.
  O velho a este tempo tinha envelhecido 40 anos em 4 e já não comparecia à mulher e foi numa dessas ausências que veio Bento, um fã jovem, bonito e pobre, lembrava à mulher sua quase pureza. Ele a fazia feliz completando o marido no que ele não mais podia, era um trato perfeito.
  Foi mais ou menos nesta época que morreu o primeiro filho, próximo a casa, atropelado por uma carroça: Peripécias. Nada de falta fez o garoto já que caiu um e surgiram quatro. O pai da moça sabido da riqueza da filha e de seu poder reapareceu alegando miséria e fome, trouxe consigo a mulher e duas irmãs viúvas. O pai tinha mesma idade , o dobro do peso e a metade da altura do Torres, era semelhante a um porco em todos os aspectos.
  Recompensando-se de qualquer sentimento que não fosse bom a família rica acolheu a pobre fazendo de uma figura engraçada aquele casarão. A moça logo passou a se salvar apenas no amante, não suportando a empolgação do marido com aquela mistura ridícula. O amante era bom, apaixonado e Carolina não podia negar sentimentos. O velho sabia do adultério no entanto se calava em sua paixão e em sua velhice, enciumava-se mesmo com o Teatro, era inadmissível que a mulher do Senador continuasse se expondo de diversas maneiras e caras a qualquer público. Num rompante de raiva e ciúme passou sempre a proibi-la de sair de casa, chegando certa vez a tranca-la em seus aposentos durante dias até que a tal se 'acostumasse' com a ideia. Mas a mulher não se baixou pelo isolamento ou pelas críticas demonstradas a família e nem mesmo pela negação de boas vestimentas, e ainda não com as dores de cabeça que a levavam ao delírio e a repentinos desmaios, calou-se no amor que sentia pelo velho marido. Seu erro dentre tantos.
  E dentre esses tantos apareceu o próximo: estar sozinha no salão  de entrada, caiu em enxaqueca, deixando seu corpo brutalmente no chão de madeiras nobres, vendada no escuro de um desmaio doloroso foi-se em panos simples e brancos, caiu abrindo a cabeça em sangue, 39, e aspecto tinha de moça: Peripécias. O filho mais novo que a encontrou , nem pranto nem drama apresentou, apenas chamou os outros que estavam no jardim apreciando o sol da bela manhã.
 O enterro foi simples mas a mulher se fazia magnífica no centro de todos, num teatro infindo para vermes, minhocas e outras figuras ridículas que encenavam tragédias e comédias sob o ensolarado Rio de Janeiro, cemitério norte à cidade.
                                                                                            G.A.
                                                                                            31/08/12



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