quinta-feira, 30 de maio de 2013

O desventurado


      Estirado no chão onde o peso do que acima estava apertava seu peito sufocando-o. Tossia os últimos suspiros agoniados, singelos acompanhantes daquelas lágrimas que também saiam do corpo como expressão da alma. O pranto de seu espírito era cruel como o de uma mãe que o filho perde, não lhe valia o pó para sanar os pecados, nem os cálices para sua divindade arder.
      Deitou-se nos panos brancos e encharcados de passado como se preso estivesse em grades que de tão reluzentes ofuscavam o prisioneiro. Refletiu: os sapatos que o levava pelas estradas doíam seus pés quando em lugar manso, estagnado em lembranças de expressões celestiais ou diabólicas da beirada do caminho, isso chegava pungente ao peito, lembrava a conveniência de parar.
     A dolência de sua lástima anulava suas feridas abertas que outrora sublime formava sua obra. Recordou as maravilhas e arrogâncias do céu e da terra como quem relembra um amor antigo e roga aceitação de joelhos sob seu túmulo de desordem.
     Levantou sob o teto de culpa que forjava um corpo caído numa postura fixa de quem desiste. Olhando o espelho, lamentou em sua face tudo o que a mente impiedosamente evocava.


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