quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Depoimento

— Ele tinha esquecido o chapéu sobre a toalha fina da mesa. Ele adorava aquele chapéu, voltamos.
Chegando, tudo muito estranho: o silêncio abrangendo o que antes era música , o vazio das mesas e a baderna de cadeiras espalhadas pelo salão, nenhum bêbado encostado no balcão do bar e no palco, o blues da noite havia se diluído pelo ar e agora era característica da madrugada. Lembrei-me da mulher triste que cantava triste, os olhos borrados e o copo de bebida em cima do piano ao lado, nunca vazio. O pianista vez em quando a olhava com interrogação, talvez tivessem um caso ou um descaso, nunca se sabe.
   As mesas estavam todas imundas, nenhum prato foi retirado, incomum para um restaurante quase mediano de uma cidade mediana.
   Enquanto eu sentada à mesa central apenas observava o lugar, meu marido procurava o tal chapéu com nenhuma rapidez, talvez ele também engajasse em qualquer reflexão. Continuei a fazer meus olhos percorrer aquele lugar até que uma taça me chamou a atenção. Uma taça quebrada na mesa próxima ao palco, dirigi-me ao local do crime, o copo deitado sobre a toalha branca não mantinha em seus arredores seus cacos, tentei acha-los, no chão encontrei talvez uma garrafa de vinho que serviu muitas gargantas e mentes, meio cheia e meio fazia, onde as gotas que derramava formara um círculo vermelho e em volta do assunto havia os tais cacos que eu procurava. Enfeitando todo o arredor havia vinho no chão do palco e rodeando a mesa. Me perguntei sobre que crime se tratava e logo me respondi "o de quebrar uma taça e o de desperdiçar vinho", talvez eu tenha sorrido, não me lembro, recordo apenas de que ao me virar, a mesa que antes estava vazia guardava agora o meu acompanhante, ele tinha achado o chapéu e se fazia completo naquele semblante vazio e triste, os olhos parados e o peito ofegante, o que parecia ser sangue escorria de sua fonte e a faca de mesa que parecia perfurar seu peito era o motivo da respiração forte. Ele estava lindo naqueles trajes talvez exagerados para aquele lugar. Me disse "Gostei da noite" e caiu com a face na mesa num barulho estranho. Achei que brincava. Peguei o que restava da taça e coloquei de pé ao seu lado e voltei para o meu palco e sem acompanhamento cantei as nossas músicas pra ele que pela primeira vez seria meu ouvinte.
    Até que vocês chegaram e me trouxeram pra esse lugar escuro e cercado de grades me obrigando a falar sobre essa noite. Eu disse tudo o que aconteceu, agora, eu posso ir? Meu marido estará preocupado comigo, aliás, onde ele está? Ele me espera lá fora?

                                                                                              G.A
                                                                                          8:44, manhã de setembro/2012

Um comentário:

  1. Sabe que é um lugar onde talvez viva nele e nunca queira ir, meio que a mente o visita sempre que escreve alguma coisa do tipo, uma taberna que desde o primeiro verso imaginei sempre a meia luz, quase obscura, o vinho, os vidros, o vermelho é tudo exitante, impressionante como nossa mente se rende aos símbolos de sedução e luxuria, pobre moça, vai ser livro, imagino que ela seja linda...

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